terça-feira, 2 de maio de 2017

Surangama Sutra: Introdução

Tradução livre e espontânea do:
O SUTRA DO INDESTRUTÍVEL COM EXCERTOS DO COMENTÁRIO PELO VENERÁVEL MESTRE HSÜAN HUA. UMA NOVA TRADUÇÃO. SOCIEDADE DE TRADUÇÃO DE TEXTOS BUDISTAS.
Esta tradução não tem interesses comerciais e tem a finalidade de Estudos e Aprofundamento sobre a prática da tradução.
Texto original disponível em: http://www.weebly.com/uploads/6/3/3/1/6331706/surangama_new_translation.pdf


INTRODUÇÃO

1.                  Revisão Geral
Por quase 1000 anos, o Surangama Sutra – o “Sutra do Indestrutível”[1] – foi mantido em grande estima pelos países budistas da tradução Mahayana do leste e sudoeste da Ásia. Na China, o sutra foi geralmente considerado importante e foi tão popular como o Sutra de Lótus, o Avatamsaka Sutra, o Mahayana Mahaparinirvana Sutra, o Sutra Coração e o Sutra Diamante. O aparecimento do Sutra Surangama aproxima-se do escopo destes ensinamentos, na profundidade e clareza de suas prescrições para a prática contemplativa. Por causa da riqueza de suas instruções teóricas e práticas na vida spiritual, ele foi frequentemente o primeiro e maior texto a ser estudado por monges recém ordenados, particularmente na escola Chan. Muitos mestres iluminados e notórios estudiosos monásticos escreveram comentários exegéticos sobre ele. Até os dias atuais, para as tradições budistas chinesas, o Surangama Sutra continua a ser objeto de devoto estudo , recitação e memorização.
Mais especificamente, o Sutra Surangama foi aferido tradicionalmente como um manual completo e prático para a prática espiritual que pode levar eventualmente para a iluminação. Ele provê instruções para o correto entendimento da natureza búdica, que é o potencial para todos os seres sencientes se tornarem um Buda. O Sutra explica como e por quê a natureza real é escondida em nossa experiência ordinária de sermos nós mesmos e no nosso mundo, e mostra como podemos descobrir esta natureza e reconhecê-la que ela reside em nossa própria mente. O Sutra explica, igualmente, que a conduta pessoal íntegra e pura são pré-requisitos essenciais para o despertar espiritual. Ele apresenta os princípios gerais para a meditação Budista, introduz muitos métodos de meditação e recomenda quais métodos são os mais efetivos e quais são os mais fáceis de praticar. Adiante, uma considerável porção do Sutra é dedicada para diretrizes sobre como discernir quais entendimentos e práticas são corretas e quais são desviaram em práticas incorretas. O sutra explica como nossos próprios atos intencionais – sejam físicos, verbais ou mentais – resultam diretamente em nossas experiências, incluindo em nossos renascimentos futuros em vários níveis de existência, ambos humanos ou não humanos. O Sutra mostra como a correta ação pode levar para despertares iniciais e eventualmente para a perfeita iluminação dos Budas.
Muito do Sutra é dedicado para a instrução de buda Shakyamuni, para o discípulo Ananda, cuja história pessoal fornece o quadro da narrativa para o discurso. Ao lado de muitos de seus iluminados discípulos, Buda mostra para Ananda como voltar a atenção para as suas faculdades sensórias internas na intenção de atingir um foco profundo no estado meditativo conhecido como Samadhi. Ele ensina a Ananda que, pela prática de uma forma particular de Samadhi, o Surangama Samadhi, ele e qualquer pessoa que mantenha a pureza de conduta e desenvolve um entendimento correto pode ganhar um despertar que é igual aos despertar experienciado pelos Budas.
O Sutra promete que a prática de recitar o Surangama, no contexto de outras práticas ensinadas pelos sutras, pode levar ao sucesso de eliminar quaisquer obstáculos internos ou externos que possam aparecer em nosso progresso espiritual. Até estes dias, monges e freiras da tradição Chinesa, assim como muitos praticantes, recitam o mantra todas as manhãs como uma parte essencial de sua vida cotidiana.

2.      O Estilo Literário do Sutra
A despeito da importância deste sutra na tradição Budista, e a despeito do valor intrínseco desta jóia spiritual escrita, o sutra Surangama continua pouco conhecido no Oeste. A razão para a relativa obscuridade do Sutra fora da Ásia é parte por conta dos aspectos do texto chinês em si mesmo. Em primeiro lugar, não existem textos originais sobreviventes. O sutra foi preservado por uma tradução setecentista para o chinês e esta tradução é amplamente conhecida entre leitores chineses por sua elegância literária e também bastante conhecido por sua dificuldade na leitura. O texto é expresso e uma sucessão de quatro frases nas quais a sua junção resultam em uma prosa metrificada – um formato que imbui o discurso inteiro em um ritmo vigoroso e linear. Para manter a métrica de quatro versos, os tradutores chineses foram geralmente forçados a omitir caracteres necessários para o significado e isso resultou infrequentemente em uma expressão imprecisa. Para tais passagens, os tradutores chineses omitiram caracteres e permitiram ambiguidades gramaticais e em um uso de palavras que faziam alusões a doutrinas sem as explicar. Com isso, muitos termos técnicos forasm transliterados do sânscrito. O resultado foi um quebra cabeça, no qual os chineses eruditos foram emboscados algumas vezes para extrair o significado do texto. Não apenas por isso, apenas alguns poucos tentaram traduzir o texto para o inglês[2].
Ao levar a termo esta nova tradução para a língua inglesa com o texto completo do Surangama Sutra, a prioridade primeira do tradutor atual é certificar que as dificuldades do texto foram reduzidas o mais possível para o leitor Ocidental. Para atingir esta meta, os tradutores buscaram por claridade, transparência e naturalidade na expressão. Sacrificamos todos esforços em emular a complexa e elegante linguagem literária do Chinês sempre que parecia a nós que esta linguagem pudesse interferir em uma plana assertiva do significado em inglês. Traduzimos muito termos técnicos em sânscrito que os tradutores chineses deixaram em sânscrito. Interpolamos capítulos e subcapítulos com lemas e com uma sucessão de tópicos nos argumentos do Sutra. Mais avante, providenciamos uma explicação interlinear comentada em quaisquer lugares que julgamos que poderia ser útil para clarificar o sentido do texto. Para atingir esta meta, escolhemos excertos de comentários que foram redigidos em palestras ministradas em 1968 pelo venerável mestre Hsüan Hua (1918-95), um eminente monge chinês e professor pioneiro em trazer a tradição exegética escritural budista para audiências ocidentais. Por fim, adicionamos notas de rodapé explicativas como suplementos para a presente introdução e comentário. As notas de rodapé fornecem referências ocasionais para outros comentários. Na maior parte dos casos, sem especial atenção, seguimos interpretações dadas pelos comentários do venerável mestre Hsüan Hua.
Fortunamente, as dificuldades impostas pelas escolhas retóricas dos tradutores chineses são de algum modo mitigadas pela maneira como o Sutra se desenvolve. Muito da discussão do Samadhi é apresentada em forma de um dramático diálogo entre Buda Shakyamuni e seu primo mais novo e seguidor Ananda. Para o leitor occidental, o formato dialógico do Sutra sugere uma profunda similaridade com os diálogos de Platão. Mas a maneira de Platão desvendar a verdade pelos meio de Sócrates co-examinar seus interlocutores é, de fato, muito diferente do padrão que encontramos no Surangama Sutra. Na primeira parte do Sutra, ambos - Buda e Ananda - usam o silogismo como tardiamente foi utilizado pela tradição lógica do Budismo. Neste texto, oo construir um silogismo, uma mera razoabilidade não foi considerada suficiente., Foi necessário estabelecer uma verdade proposicionada ao citar, como por exemplo, uma evidência da proposição no trabalho da experiência com a vida cotidiana. A presença destes exemplos é um aspecto fundamental do estilo distinto do Sutra. Tão logo o argumento progrida de um ponto para o outro, o leitor recebe uma série de dados sobre a rotina diária de uma comunidade monástica e da vida ordinárias de cidadãos que viviam próximos à cidade de Sravasti. Lemos sobre os monges sentados com os seus potes de esmola, ocupados comendo comidas com seus dedos com o modo indiano. Ouvimos sobre os inquilinos solicitando benefícios para os pedintes e os curadores locais segurando potes até a lua cheia para coletar orvalho para que pudessem misturar com suas porções de ervas. Conhecemos um monge que gastou sua vida consertando buracos de potes em estradas públicas e sobre o desespero de um rei que está ficando velho. Quão obscuro ou abstrato o discurso pareça, ele é sempre profundamente colorido com um sentido de tempo e espaço, com sinais dos sons e das pessoas do norte da índia como ela era há 125 anos atrás.

3.      Sinopse do Sutra
Prólogo: Ocasião do Ensinamento.
Quando o sutra inicia, Ananda está sozinho na estrada, fazendo a tradicional caridade voluntária monástica. Passando involuntariamente ao lado de uma casa de cortesãs, ele é confundido pela recitação de um feitiço realizado por uma jovem cortesã. Ela pretende seduzí-lo e ele está prestes a quebrar o seu voto celibatário. O Buda Shakyamuni sente à distância a aflição do primo e cria um buda sentado na mente de Ananda e este Buddha inicia a recitação do Sutra Indestrutível. Então, o buda Shakyamuni envia o bodhissattva Manjushri para manejar os poderes do mantra para vencer os poderes do feitiço da cortesã. O Boddhissattva Manjushri retorna para o terreno monástico com Ananda e com a cortesã.  Com a assembléia de monges e diante de uma multidão de leigos, Ananda encontra face a face com o buda. Profundamente decepcionado pelo seu próprio comportamento, Ananda solicita instruções sobre como evitar error futuros. Este é o "pedido do Darma" o qual é a maior parte do discurso introdutório de Buda.

Parte I: Sobre a natureza e localização da mente
Ao responder sobre o pedido do primo, Buda deixa claro que o erro de Ananda não reside no fato de ter prejudicado a prática do celibato. Igualmente sério foi a frouxidão de sua prática meditativa e da perfeita atenção. Por causa de sua frouxidão, o seu foco mental não foi firme o suficiente para resistir à influência do feitiço da cortesã. É este o erro que Buda ensinou a evitar. Suas assertivas mostram a Ananda primeiramente o que deve ser considerado para transcender o mundo condicionado - qual seja, como transcender o meio das impressões sensórias que pensamos ser ambientes externos e os meios dos pensamentos profundos que nós louvamos como características de nossas próprias identidades.
Para aproximar este tópico, Buda inicia perguntando Ananda sobre a localização da mente. Ananda oferece a resposta evidente de que a mente é encontrada no corpo. Buda, com um comando superior de pensamento lógico, rapidamente refuta a ampla suposição de Ananda e outras seis possibilidades ofertadas pelo próprio Ananda. Ananda é deixado com a desconcertante conclusão de que a mente não está dentro do corpo e nem fora do corpo, nem em nenhum lugar entre, nem em lugar algum. Buda completa a confusão do primo asseverando que existem fundamentalmente dois tipos de mente - primeiro, a mente ordinária a qual nós estamos conscientes e enrolados, vida após vida, nas teias das ilusórias percepções e atividades mentais delusionadas; e a segunda, a verdadeira mente eterna, que é a nossa real natureza e que é idêntica ao completo despertar de todos os Budas. Buda adiciona que é por que os seres perderam contato com a sua verdadeira mente que eles estão presos ao círculo da morte e do renascimento.

Parte II: A Natureza da Consciência Visual
Tendo explicado a verdadeira mente, Buda inicia um diálogo com Ananda, contando sobre práticas de atenção que guiam para a verdadeira mente.Buda inicia trazendo para nossa atenção o simples fato de que nós estamos conscientes. Focalizando na consciência visual como um paradigma, ele examina o despertar através de uma série de vinhetas ilustrativas, muitas delas envolvendo outras personagens. Ele demonstra que, embora as coisas movam para dentro e para fora no campo de nossa visão consciente, a essência de nossa consciência em si mesma não se move. A nossa consciência une-se a objetos, mas não é o objeto em si mesmo. Mesmo a cegueira, estirtamente falando, não significa que não existe contato visual algum. Pergunte a uma pessoa cega o que ela vê, Buda sugere a Ananda, e a pessoa cega responderá que vê a escuridão. Em resumo, a essência de nossa consciência visual não muda. Ela não floresce e não desaparece em resposta aos objetos visíveis que entram em nosso escopo de visão. O mesmo pode ser dito sobre nossa consciência de sons, cheiros, sabores, objetos tangíveis e também sobre as quatro consciências dos pensamentos de nossas mentes. Buda explica posteriormente que a capacidade essencial de ouvir nunca é ausente, não importa se exista silêncio ou som. A implicação lógica é que, dada às variedades de consciências existentes independente dos objetos, deve ser possível desamaranhar a consciência do objeto. Desse modo, seremos livres para direcionar nossa atenção para dentro, separar nós mesmos do mundo condicionado e estabelecer nós mesmos em altos níveis de atenção, ou seja, no Sutra do Indestrutível.

Parte III: a Matrix daquele que pode vir a ser
A pergunta resiste: por que nós gostaríamos de parar de prestar atenção no mundo condicionado? A pergunda é bipartídite: primeiro, nosso envolvimento no mundo é envolta de insatisfação e sofrimento e, segundo, o mundo não é real. É neste segundo ponto que Buda se detém. Ele inicia declarando:
"Fundamentalmente, tudo o que chega, vai, o que é, deixa de ser, é intrínseco à natureza da Matriz daquele que pode vir a ser, que é maravilhoso e eternamente entendível - o que não se move, completamente penetrande, maravilhosamente repleto de realidade".
A partir daí, ele inicia a demonstrar a verdade de suas proposições por uma série de silogismos. Ele mostra cada um dos elementos do mundo físico e como cada um dos elementos de nosso aparelho sensório é, fundamentalmente, uma ilusão. Ao mesmo tempo, essas entidades ilusórias e experiências submerge daquilo que é real. A Matrix de onde tudo isso é produzido é a Matrix daquele-que-pode-vir-a-ser. Ele é idêntico à nossa própria verdadeira mente e idêntica à fundamental natureza do universo e da mente de todos os Budas. Ele reside além da concatenação que chamamos de self e além da miragem sensória-informativa que chamamos de mundo.

Parte IV: O Vir a Ser do Mundo da Ilusão
Agora Purnamaitrayaniputra, um discípulo mais antigo, questiona. Se, como a lógica de Buda mostrou, os elementos primários do mundo psico-físico e os elementos constituintes da percepção são ilusórios na forma como experimentamos eles, embora sejam fundamentalmente idênticos aos da Matrix daqueles-que-podem-vir-a-ser, como podem eles serem separados, entidades ilusórias? Como é que nós nos esquecemos nossas bases da realidade verdadeira e nos tornamos perdidos em uma grande ilusão? Em diálogo com Purnamaitrayaniputra, o Buda explica que tudo flui de nosso erro inicial de dividir realidade em Self e Outros. Este processo começou com o que Buda chamou de “adicionar entendimento ao entendimento” e leva a uma divisão que foi inicialmente uma consciência unificada com um observador que foi separado daquilo que observava. Nossa unidade fundamental com a Matrix daquele-que-pode-vir-a-ser é obscura, assim como um céu limpo é coberto com nuvens. Para enfatizar como é desnecessária a divisão entre Self e Outro, Buda relata uma parábola. Um cidadão de nome Yajñadatta correu por sua vila procurando por sua cabeça que ele, bobamente, julgava ter perdido. A sua cabeça, é claro, estava todo o tempo sobre seus ombros, assim como sua verdadeira mente, que ele havia esquecido e, portanto, plenamente acessível a todos nós.

Parte V: Instruções em Prática
Com as informações, Buda construiu a base conceitual para as instruções o Surangama Samadhi. As faculdades sensórias – olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e cognição – são obstáculos que nos mantém distantes da nossa casa verdadeira. Mas se direcionarmos a atenção destas faculdades em sentido reverso e as direcionarmos para dentro ao invés de para fora, elas se tornarão os meios para retornamos para nossa realidade. Buda relembra a Ananda que libertar a mente do seu envolvimento ao perceber os objetos é possível por causa da consciência de que o mundo é independente da percepção do mundo. Ele demonstra novamente esta independência ao instruir seu filho, Rahula, com o som de um sino. Buda mostra que quando o som do sino morre adiante, nossos poderes de ouvir mantêm-se intacto, desde que nós estamos conscientes primeiro do silêncio e, aí, do som do sino novamente. Buda diz: “ Tudo o que você precisa fazer é não permitir que sua atenção seja dispersa pelos 12 atributos condicionados do som e do silêncio, contato e separação, sabor e ausência de sabor, abertura e bloqueio, tornando-se um ser e perecendo, e luz e sombra. Depois, abra uma faculdade ao separá-la de seus objetos. Redirecione a faculdade para dentro e ela pode retornar para o que é original e verdadeiro. Assim, ela irá irradiar luz para o entendimento original. Essa luz brilhante irá iluminar adiante e abrir todas as cinco faculdades até que elas estejam completamente livres”.

Parte VI: As vinte e cinco sabedorias
Ananda pergunta ao Buda para instruí-lo em qual das faculdades da percepção ele deve focalizar em sua prática. Ele espera que Buda transmita a ele uma resposta em privado em uma transmissão mente-a-mente, mas ao invés disso Buda devolve a pergunta de Ananda para a audiência. Ele pede aos Sábios presentes para voluntariarem-se a explicar como a prática espiritual deles permitiu-os a entrarem no samadhi e, assim, quebrarem a ilusão e tornarem-se iluminados. Em resposta, 25 sábios levantaram um a um no meio da assembleia e contaram suas histórias de iluminação. Dezessete sábios contaram sobre as práticas envolvendo os elementos constituintes da percepção e sete outros sábios contaram sobre a iluminação a partir da contemplação de um dos elementos primários.
A explicação mais extensa foi dada pelo vigésimo quinto sábio, o Bodhissatva Que Ouve o Choro do Mundo. A prática que o levou para a iluminação foca em reverter a atenção da faculdade do ouvido. Contada sua história, o Bodhissattva que Ouve o Choro do Mundo discute os poderes que sua prática de Ouvir trouxe para ele. Ele especifica que ele pode preencher os desejos de 32 tipos de humanos e não humanos, como ele protege as pessoas em situações perigosas de modo que elas não tenham nada a temer e como ele aparece de várias formas para ensinar aos seres e para protege-los.
O Buda pergunta a Manjusri para recomendar a Ananda um dos 25 caminhos da iluminação que foram descritos pelos 25 sábios. Falando em versos, Manjusri endorsa a prática de Ouvir como foi descrita pelo Bodhissatva que Ouve o Choro do Mundo. Manjusri conclui que esta prática é a mais adequada para Ananda e para os seres do futuro[3].

Parte VII: Quatro instruções claras e definitivas sobre a Pureza
A seguir, Buda descreve um segundo aspecto da prática do samadhi. Reverter a atenção da faculdade dos ouvidos não é suficiente. O ser não pode progredir apropriadamente em nenhum caminho espiritural se o seu comportamento moral não for correto. Buda insiste na pureza em quatro esferas de conduta, as quais, na Tradição Budista, são adereçadas pelas primeiro quatro de cinco preceitos morais: não se deve matar, roubar, cometer conduta sexual inapropriada ou falar falsamente de modo que possa causar mal a outros[4]. Nesta parte, Buda explica que, na intenção de praticar o samadhi de modo correto, não é apenas necessário refrear os impulsos de matar, roubar, utilizar mal o sexo ou falso testemunho: o ser deve apagar qualquer pensamento de tais ações em sua mente.

Parte VIII: O Surangama Mantra
A pedido de Anando, Buda explica em grande detalhe como criar um lugar para despertar devotado para a prática do Surangama Mantra, e a partir daí Buda recita o mantra para todos da assembleia ouvirem. Em seguida, ele explica com recitar o mantra, especialmente de memória, assim como os simples atos de devoção para o mantra e como eles podem trazer benefícios para o praticante, incluindo segurança das dores e progresso espiritual mais rápido. Finalmente, seres numerosos da assembleia de ouvintes levantam-se para criar os votos de que eles irão proteger qualquer um que pratique o Surangama Mantra.

Parte IX: Níveis de Seres
Nesta seção, Buda responde ao desejo de Ananda para aprender sobre os níveis de Seres. Buda divide, inicialmente, os seres em 12 classes organizadas de acordo com a maneira do seu nascimento. Ele, então, sumariza brevemente, 60 estágios nos quais os Bodhissatvas passam por seus caminhos de despertar semelhantes aos Budas. Finalmente, ele descreve em grande profundidade os sofrimentos dos seres confinados em infernos e, mais brevemente, 6 outros destinos: fantasmas, animais, humanos, mestres ascéticos, deuses em seus 28 reinos celestiais e, finalmente, asuras. Ao descrever estes estágios dos Bodhissatvas, Buda oferece para Ananda um mapa para seguir nas suas práticas futuras. Ao descrever os infernos e outros destinos, ele avisa aos ouvintes dos perigos de cometer atos intencionais que podem gerar consequências desagradáveis. Aqui, novamente, ele refere às proibições que são enfatizadas repetidamente no texto: não matar, não roubar, não cometer conduta sexual inapropriada e não falar falsos testemunhos.

Parte X: Estados Demoníacos da Mente
Na parte final do Sutra, Buda fala novamente sem o pedido por uma instrução, como ele fez na parte III. Nesta seção, ele dedica-se a avisar aos praticantes para manterem a vigia contra os cinquenta estados demoníacos da mente que podem surgir durante o período nos quais os devotos estejam quebrando o apego sobre os cinco agregados – forma, percepção sensória, cognição, formações mentais e conscienciosidade. Dez estados de mente são descritos para cada um dos cinco agregados. Buda explica que se o praticante lograr a estes estados como não importantes, os estados irão desaparecer em comum acordo. Mas se os praticantes caírem sob a influência destes estados, eles podem se tornar presos. Eles podem enfrentar insanidade ou possessão demoníaca ou podem, simplesmente, parar no caminho. Os praticantes nestes estados podem levar outros devotos para o mesmo caminho. Ao descrever pessoas que tomaram os caminhos errados, esta seção serve como um aviso conta cair sob a influência de charlatães espirituais e seus cultos. O aviso é relevante para hoje.
Para cada um destes cinquenta estados mentais, uma descrição vívida é demonstrada para o fenômeno mental experienciado pelo praticante. Em essência, o que é apresentado é um método únido para catalogar e classificar as experiências espirituais, junto com uma indicação das causas que levam para cada uma das experiências. Embora os 50 estados de mente descritos não seja uma lista exaustiva de todos os estados de mente possíveis, o texto oferece um quadro para a classificação de todas as experiências espirituais, ambos Budistas ou não budistas.
Finalmente, em diálogo com Ananda, Buda descreve a imensa quantidade de mérito que foi ganhada por aqueles que ensinam a outros sobre o Surangama Mantra e sobre o Surangama Sutra.

4.      O significado do Título
Surangama Sutra é um título abreviado.Um título mais extenso, embora ainda parcial, é Sutra sobre o surangama Mantra Que foi Falado sobre a Coroa da Cabeça do Grande Buda. O título completo é Sutra sobre o Surangama Mantra que foi Falado sobre a Coroa da Cabeça do Grande Buda e sobre as Bases Escondidas para as Miríades daqueles-que-podem-vir-a-ser Bodhissatvas ao praticar ações que os levam às suas próprias verificações da Verdade Última. Este título completo une os dois títulos que o Buda sugeriu em uma breve passagem próximo ao final do Sutra.
Na tradição budista, um sutra é um discurso que contém os ensinamentos de Buda Shakyamuni ou os ensinamentos de outros Budas ou seres iluminados.
Um Buda é um ser plenamente iluminado que desenvolveu perfeita sabedoria e compaixão universal. O Buda particular cujos ensinamentos foram falados em benefício dos seres deste planeta e desta era, e que viveu no noroeste da Índia durante o sexto e quinto século antes de cristo, foi o príncipe Sidhartha Gautama, que, ao atingir plena iluminação, tornou-se Buda Shakyamuni. Ele é referido como o Buda histórico. É ele quem fornece os ensinamentos contidos neste Sutra.
“Grande” descreve a verdadeira natureza de um Budas – não o seu corpo físico, mas sua mente plenamente desperta, que preenche todo o universo. Este aspecto do Buda é, algumas vezes, simbolicamente representado como o Buda Vairocana, que é o “Grande Buda” referido neste título.
As “bases escondidas para as práticas Bodhissatvas” é o Surangama Sutra e o Surangama Samadhi.
“Aquele que pode vir a ser” é um termo honorífico utilizado para nomear Buda.
A palavra “Bodhissattva” pode ser traduzida como “ser desperto”. Bodhissatvas devotam seus corpos para o despertar de todos os seres, enquando ao mesm tempo se engajam nas “práticas miríades” que ops levarão para o completo despertar.
Quando um ser se torna um Buda, que é a meta da miríade das práticas bodhissattvas, ele pode verificar através de suas próprias experiências a natureza da verdade última.

5.      Níveis de ensino
Buda ensinou em dois níveis diferentes: ele ensinou sobre o tranquilo permanecer, verdadeiro Darma, que é aplicável a todas as circunstâncias de todos os tempos, e ele ensinou sobre o Darma provisional, que ele costurou às necessidades da audiência e serviu para o contexto e circunstâncias. O Surangama Sutra foi falado em resposta ao desastroso erro e julgamento que Ananda fez durante sua prática de caridade, fazendo clara a sua necessidade de desenvolver o poder do samadhi, como contado no prólogo do Sutra.
Os ensinamentos provisionais de Buda variam conforme a audiência e suas aspirações, em seus próprios níveis de realizações, nas suas práticas meditativas e na sua capacidade de entendimento. Alguns dos registros de seus ensinamentos contém muitos níveis de instrução no mesmo documento, enquanto outros registros limitam-se4 a explicar apenas um tipo de ensinamento. Todos os ensinamentos de Buda não são necessariamente apropriados para todos em todos os níveis.
Mais adiante, durante uma carreira de quase cinquenta anos, e enquanto sua audência progredia na própria prática, seus ensinamentos progrediram gradualmente do nível introdutório para o nível avançado. Em alguns casos, os ensinamentos posteriores criticam substancialmente os introdutórios, trocando ensinamentos iniciais com pelos últimos. Algumas destas críticas aparecem neste Sura, assim como as críticas aos ensinamentos não-budistas que existiam na Índia durante e depois da era do Buda.
A tradição Budista sustenta que, após o nirvana do Buda, o nível geral de entendimento e prática dos ensinamentos Budistas vagarosamente caem. O maior sinal de declínio ocorre cinco centenas de anos após o nirvana; esta é a cisma que divide o Budismo nas vertentes Mahayanma (“Grande Veículo”) ou Budismo Norte, que subsequentemente se espalhou para a China, Coréia, Java, Vietnam e Tibet; e o Thevada (“Ensinando para os Mais Velhos”) ou Budismo do Sul. Esta forma sulista se espalhou para o Sri Lanka e para o Sudeste da Ásia. A vertente Mahayana é dividida em muitas outras escolas, entre elas existem a Escola do Vazio (Madhyamaka); a escola Apenas-Consciência (Yogacara); a Terra Pura; a Matrix daqueles que podem vir a ser (Tathagatagarbha) e os Estudos Esotéricos (chamados Vajrayana no Tibet). O Sutra Surangama contém ensinamentos que são consoantes com todas estas escolas, ao focalizar nos ensinamentos da Matrix Daqueles Que Podem Vir a Ser e nos ensinamentos da Escola Esotérica, ambas das quais floresceram na India antes de terem sido introduzidas na Crina no tardio século XVII e XVIII.
Outra abordagem dada para os comentários tradicionais são os entendimentos sobre os níveis de ensinamento sobre o Surangama Sutra enumerados e explicados em 4 portais sucessivos de inquirição e entendimento: ‘) Inquirição Inteletual sobre o sentido do texto do Sutra; 2) Meditações em se tornar um fenômeno de Ser a partir de nossas próprias distinções, como elaborado pela escola Apenas-Consciência; 3) uma abordagem numeral que aproxima diretamente a natureza de todos os fenômenos, qual seja a natureza da vacuidade de qualquer essência real e independente existência de qualquer fenômeno, como elaborado pela Escola do Vazio; e 4) a relação da interrelação desobstruída do númeno e do fenômeno, como encontrado na Matrix Daqueles que Podem Vir a Ser e sua posterior elaboração em conjunto com a escola Huayan chinesa.

6.      As razões para ensinar
Comentadores tradicionais identificaram seis preocupações que são direcionadas para os ensinamentos de Buda no Surangama Sutra. Eles podem ser sumarizados conforme vemos abaixo:
1)      A primeira é a importância de balancear a prática do aprendizado e a prática da meditação. Ananda foi considerado como o discípulo de memória mais arguta. Ele fez a falsa presunção de que poderia depender apenas de sua inteligência e sua relação especial dom Buda e, como resultado, ele negligenciou sua prática. Consequentemente, ele não obteve samadhi suficiente para superar o feitiço que a cortesão direcionou a ele.
2)      O Segundo perigo são os charlatães que se posicionam como professores, cujas visões errôneas são consequência de seus próprios desarranjos mentais. O sutra condena professores espirituais que enaltecem seus méritos espirituais avançados e que violam as normas morais de conduta. Buda avisa sobre estas pessoas em três momentos no texto: na parte VII e parte IX.3B, na qual ele discute pureza, e na parte X, na qual ele descreve os estados demoníacos de mente associados aos cinco agregados.
3)      O terceiro perigo é a necessidade de entender apropriadamente a diferente entre a mente verdadeira de um ser e o jeito de distinguir a consciência de um ser, desde que entendimento é um pré-requisito para uma boa prática. Desde que pessoas geralmente consideram que seja a sua própria mente não seja a mente verdadeira, as primeiras porções do Sutra exploram sistematicamente as proposições erradas sobre a mente na intenção de revelar a verdadeira mente.
4)      O quarto perido é que o entendimento correto deve ser seguido pela prática meditativa que seja fundamentada na mente verdadeira. Uma vez que nós criamos o compromisso conosco no caminho do desperta, devemos aprender que a prática é necessária para manter o progresso. Isso inclui aprender técnicas de meditação apropriadas, escolhendo aquelas práticas meditativas que sejam fundamentadas em nosso mais profundo ser, e evitando práticas de meditação que não nos direcionem para o despertar completo. Nas palavras do venerável mestre Hsüan Hua:
“Existem muitas portas para o Darma na prática do samadhi, e existem outros samadhis que não são ensinados no budismo. Mas ao cultivar o samadhi,m se você começar em uma direção errada mesmo que o erro seja menor que um fio de cabelo, você irá perder a sua meta por mais de mil milhas. Por isso, é necessário cultivar um samadhi apropriado. Pessoas que pegam o caminho errado, não desenvolvem o samadhi apropriado porque o trabalho deles é direcionado para os ramos mais do que para as raízes. Eles trabalham seus corpos, que é uma armadura falsa. Eles acreditam que a mente cotidiana, a sexta consciência, seja a mente verdadeira. Como resultado, suas práticas dão a eles pouca consciência do tranquilo permanecer, mas a experiência deles não é genuína. Eles forçam eles mesmos a manterem seus pensamentos fechados, sem aparecerem, mas eles não chegaram até a raíz da mente deludida, então eles não conseguem por um fim à morte e ao renascimento. O processo é semelhante a colocar uma pedra em cima de um local onde se nasce grama. Uma vez que a pedra seja removida, a grama retorna a crescer.
5)      O quinto perido é, na intenção de praticar a meditação corretamente, o praticante deve saber como se livrar das distorções dos processos mentais. Práticas meditativas apropriadas, uma vez que sejam aprendidas, devem se rusadas sistematicamente para eliminar os processos mentais grosseiros ou sutis que são obstáculos para o progresso no caminho. Aquelas atividades mentais são frequentemente ligadas à poeria no espelho de nossa mente verdadeira. O Sutra exorta a nós para realizarmos o compromisso de purificar nossas mentes.
6)      O sexto perigo é que, na intenção de ensinar aos outros, devemos não apenas realizar a verdadeira natureza de nossas mentes, mas também aprender uma variedade de ferramentas necessárias para auxiliar os outros ao longo do caminho. Os estudos provisionais tornam úteis das ferramentas para trazer as pessoas para o Darma.

7.      Correspondência dos ensinamentos do Sutra com as escolas mahayanas budistas
Muitos dos ensinamentos essenciais da linhagem mahayana representados pelo Surangama Sutra foram posteriormente sistematizados por escolas específicas. Conhecer estas escolas pode oferecer um entendimento mais claro sobre os ensinamentos do Sutra, particularmente quando o sutra alude para os ensinanamentos que não o explicam em detalhes. Por esta razão, um breve sumário é dado aqui sobre alguns relevantes ensinamentos da escola Apenas-Consciência (Yogacara), a Matrix daquele-que-pode-vir-a-ser (Tathagata-garbha) e da Escola Esotérica.

A escola Apenas-Consciência
Embora as oito doutrinas de consciência da Escola Apenas-Consciência da linhangem budista mahayana não sejam explicitamente ensinadas no sutra Surangama, comentadores tradicionais acham que esta doutrina seja útil para explicar o significado do texto.
A escola Apenas-Consciência descreve a mente como um sistema de sete consciências ativas (vijñãma), todas se desenvolvem em uma oitava, a “casa da consciência”. A última é passiva e contem os potenciais, ou “sementes” (bija), para desenvolvimento e atividade das sete primeiras consciências. A sétima consciência, ou “individuando a consciência” (manas), contem o senso inato do self; A sexta consciência contem o senso aprendido do self e é um centro de processamento perceptivo e cognitivo. Ela faz distinções entre as informações enviada para e a partir das cinco primeiras consciências, que são as consciências perceptivas dos olhos, ouvidos, nariz, língua e corpo. A sexta consciência faz distinção entre objetos cognitivos, tais quais pensamentos e emoções.
Uma vez que as sete consciências tenham sido emadadas da oitava consciência, elas são usualmente experienciadas como separadas e distintas, mas estas faculdades são fundamentalmente uma.
A oitava consciência conta com um completo espectro de processos mentais. Neste sistema, não há necessidade de noções sobre o real, self permanente ou self real e fe^nomenos externos e internos permanentes. Todos os reinos verdadeiros e reais da experiência são mostrados como se contivessem dentro das transformações da consciência. Eles aparecem como manifestações da mente distintiva-realizadora. O que existe de fato é apenas a consciência, ou seja, a oitava mente purificada.
Entretanto, devido ao nosso apego para e crença na realidade do self e na realidade de todos os fenômenos que são perceptíveis e compreensíveis como se fossem do mundo exterior, a verdadeira natureza do mundo e sobre nós mesmos é obscura, tão obscura que somos completamente inconscientes disso.

A Matrix daqueles que podem vir a ser
Estes ensinamentos focalizam na natureza da realidade última e no potencial de todos os seres para despertarem para a realidade. Através de uma correta prática budista, podemos caminhar avante de nossos úteros espiriturais o buda embrionário que foi encontrado dentro de cada ser senciente. As oito consciências descritas na doutrina Yogacara são consideradas verdadeiras apenas provisoriamente. Em última instância elas são ilusórias, como Buda explica na parte III. Nosso mundo de ilusões surge do Tathagata-gabbha, a Matrix daqueles que podem vir a ser (outros termos equivalentes incluem Natureza-Búdica, o Corpo-do-Darma e a mente verdadeira). Esta realidade espiritual essencial é inerente a todos os seres sencientes, e o trabalho prático do espírito é remover a ilusão que acoberta isso. A Escola da Matrix Daqueles-Que-Podem-Vir-A-Ser enfatiza a presença dessa essência espiritual em todos os seres sencientes, e disso emerge uma ênfase no vegetarianismo, que aparece neste Sutra na parte VII.
Na parte VI, Buda explica como o mundo ilusório dos fenômenos físicos e mentais – meu, seu e das coisas – parece aparecer daquele primeiro vislumbre da ignorância da mente iluminada. Esta explicação, que é consoante com os ensinamentos de Tathagata-garbbha, não é histórica ou temporal. É mais uma exposição dos limites de nossas experiências ou consciências. A implicação é que nós vivemos na superfície de nossas consciências. Aquilo que nós somos conscientes é meramente a superfície de uma mente mais profunda ou uma potência de consciência. Embora possamos estar plenamente contentes por estar vivos na superfície, nós tempos potencial para aprofundar nossas consciências. A prática budista é preocupada com essa profundidade, que envolve um redirecionamento de nossa consciência para longe do mundo ilusório e em direção à nossa mente original, que é idêntica à mente de todos os Budas.

Ensinamentos Esotéricos
Os ensinamentos Esotéricos, conhecidos por Buda como Vajrayana, inclui várias metodologias de meditação e outras práticas que são transmitidas privadamente de professor para discípulo em transmissões formais ou rituais de empoderamento. Eles incluem a recitação de mantras, algumas vezes em coordenação com mudras (rituais nas quais as mãos são posicionadas) e pelo uso de implementos rituais, e também por meio do ensinamento de visualização de deidades, rituais de criação de espaços sagrados (mandalas) e o oferecimento de oferendas elaboradas. O capítulo central do Surangama (Parte VIII) descreve algumas destas práticas em detalhes. A pureza moral é um pré-requisito essencial para as práticas Esotéricas, assim como é para a prática Budista, e o Suytra contém avisos fortes sobre os perigos da imoralidade, que tornou-se comum em muitos círculos tântricos budistas na Índia do passado. Desde aquele tempo, a falha em reconhecer a pureza moral necessária foi um abismo frequente para um número significante de professores e estudantes dos estudos esotéricos, ambos na Ásia e no Ocidente.

8.      O Silogismo e o Tetralemma
Muitos leitores podem se surpreender sobre o quão lógico pode ser a argumentação que eles encontram na primeira metade do Sungarama Sutra. De fato, o Budismo e outras religiões indianas desenvolveram um elevado sistema de lógica formal. Neste Sutra, ambos – Buda e Ananda – usam silogismos que são formas avançadas de provas de proposições. Estes silogismos conformam amplamente o sistema de lógica de inferência desenvolvida pelos lógicos Budistas na Índia, conhecidos como hetu-vidya. Ocasionalmente, é possível encontra um sistema de quatro negações (o tetralemma).

O silogismo
De acordo com o sistema antigo de lógica formal indiano, a verdade de uma proposição pode ser demonstrada em cinco passos:
a)      Uma proposição (pratijna) é declarada.
b)      A razão (hetu) da proposição é dita como a verdadeira sentença
c)      Uma ou mais instâncias (drstana ou udaharana) da proposição pode ser encontrada na vida ordinária e este exemplo é verificado
d)     Estas instâncias são aplicadas (upanaya) à proposição, mostrando como demonstrar a verdade da assertiva
e)      A conclusão (nigamana) reitera a proposição, agora demonstrada com um exemplo da vida comum.
Estes cinco passos foram reduzidos a três, em efeito deixando de fora os dois últimos dos cinco:
a.1) Proposição
b.2) Razão
c.3) Instâncias
c.3.1) Instância positiva
c.3.2) Instância negativa
No sutra Surangama, Buda usa elementos de ambos os passos: o silogismo em cinco partes e o silogismo em três partes.
O que é possivelmente mais visceral para um leitor Ocidental é a importância das instâncias dadas. Em efeito, casos específicos de uma proposição, garantido que elas sejam proveitosamente aplicáveis, são consideradas como demonstraçãoes da verdade da proposição geral. Existem debates que tentam explicar em quais casos a instância é de fato aplicável, ou seja, se a verdade da proposição pode verdadeiramente ser inferida pela própria proposição. Este padrão de inferência por instância é um elemento retórico domunante na primeira parte do sutra. O exemplo a seguir, delineado no início da segunda parte, pode servir de auxílio para muitas ocorrências do mesmo padrão:
1: Proposição: é a mente e não os olhos que vê (no texto este passo é implícito, mais do que declarado).
2: Razão: Nossa consciência visual é ativa mesmo que nada possa ser visto.
3: Instância retirada da vida cotidiana: Nas palavras de Buda: “Se você pergunta a um homem cego na rua, “Você vê alguma coisa?”, ele responderá sem dúvidas, “Tudo o que vejo é escuridão”.
4: Aplicação da instância: “Reflita sobre o que isso pode significar. Embora o homem cego veja apenas escuridão, a sua consciência visual mantém-se intacta”.
5: Conclusão: “Os olhos em si mesmo simplesmente revelam objetos visíveis, é a mente que vê e não os olhos”.

A negação em quatro partes (Tetralema)
Na lógica antiga indiana, declarações podem ser afirmadas, negadas, nem afirmadas ou negadas e ambas negadas e afirmadas. O fundador da Escola da Vacuidade (Madhyamaka), o Bodhissattva Nagarjuna, popularizou a negação lógica nestas quatro possibilidades como um jeito para mostrar a vacuidade de tudo que pode ser construído como real, o self permanente ou fenômeno ou como um atributo do real, permanente self ou fenômeno. Nesta negação de quatro partes, algumas vezes chamada de tetralema (catuskoti), uma proposição é declarada para ser nem verdadeira nem falsa. Esta fórmula existe para relembrar à nossa prática que tudo o que percebemos é vazio de qualquer atributo, e, portanto, nada definitivo pode ser asseverado sobre o mundo e sobre os conteúdos da mente. Existem instâncias numerodas de tetralema neste Sutra.

9.      Complementos à leitura
A tradição de comentários
Nas sábias tradições asiáticas, textos sagrados foram geralmente estudados com a adição de comentários que não foram nem escritos e nem falados pelos professores espirituais. O padrão usual foi o seguinte: cada passagem do texto é seguido de um comentário interpretativo, algumas vezes bem amplos. Isso não é exceção para os textos budistas. Ao lado do Surangama Sutra uma rica tradição de comentadores floresceu. Como mencionado abaixo, foram encontrados 127 comentários chineses sobre este sutra, incluindo 59 na dinastia de Ming (1368-1644), quando o sutra era especialmente popular.
Para estudantes mais sérios, a exegese de comentadores é essencial. Os tradutores presentes consultaram dois comentários em particular: o comentário do mestre Hsüan Hua e o comentário do venerável mestre Yuanying (1877-1953). Em adição, a tradução utilizou o comentário da dinastia Ming feita por Chan Mestre Hanshan Deqing (1546-1623) e da dinastia Qing do mestre Xufa.

Engajamento com os Sutras como uma prática espiritual
Na tradição budista, os sutrasw são compreendidos como portadores dos ensinamentos dos Budas e dos grandes mestres iluminados. Eles funcionam como manuais para o Caminho do despertar. Por esta razão, eles são tratados com reverência. É costumeiro manter sutras em lugares limpos, separados dos trabalhos seculares, segurá-los com respeito e lê-los apenas quando estiver sentado em ordem ou em pé – nunca enquanto estiver deitado ou em uma postura desleixaqda.
Sutra – assim como os textos sagrados de outras religiõpes – podem ser eles mesmo o foco da prática espiritual. Algus devotos leem textos particulares, como o Surangama Sutra, por um período de tempo em cada dia. Outros se comprometem a memorizar o texto e recitá-lo. (...) Tais práticas podem desenvolver a fé, desamarrar os laços com o self e levar para uma transformação pessoal e crescimento espiritual.

Os sutras como guias práticos
Buda não deve ser entendido como um filósofo que tentou desenvolver um sistema filosófico, completo em sua epistemologia, metafísica e cosmologia. Ele também não se engajou no pensamento científico. Os seus ensinamentos não especulam sobre a natureza do que parece ser o mundo exterior. A sua meta era ensinar aos seres sencientes como compreender a sua experiência de tal modo que eles fossem capazes de eliminar o sofrimento e a qualidade insatisfatória de suas vidas. Quando lemos as assertivas dos sutras que parecem ser abstrações filosóficas ou excursões pela neurociência ou psicologia cognitiva, devemos compreender que o propósito e significado destas declarações são compreender e avaliar à luz de sua utilidade para avançar nos caminhos espirituais.
Numa celebrada passagem dos Discursos Médios Profundos de Buda, ele compara a si mesmo e seus ensinamentos com um cirurgião que retira a flecha venenosa de um corpo de um homem com a intenção de salvar sua vida. O cirurgião instrui o homem como cuidar de sua ferida de modo a se curar rapidamente, mas ele não propõe nenhum remédio exterior ou informação médica que pode possibilitar sua cura.
“Suponha que exista um homem ferido por uma flecha envenenada, e seus amigos e companheiros, seu homem de guarda e parentes, tragam um cirurgião. O cirurgião corta ao lado da ferida com uma faca, e deve neutralizar a flecha. Ele provavelmente tirará a flecha e retirará o veneno sem deixar nenhum traço dele para trás. Sabendo que nenhum traço do veneno foi deixado para trás, o cirurgião dirá: “Bom homem, a flecha foi retirada de você, o veneno foi retirado sem nenhum vestígio deixado para trás, e o veneno é incapaz de ferir você. Coma apenas comidas apropriadas, não coma comidas inapropriadas, ou desse modo a ferida pode suturar. De tempos em tempos, lave a ferida e de tempos em tempos abra a ferida para que o pus e o sangue não cubra a ferida aberta. Não ande pelo vendo ou sol ou poeira e sujeira que possam infectar a ferida aberta. Cuide de sua ferida, bom homem, e verifique como a ferida se cura”.
Assim, o homem pode pensar: “ A flecha foi retirada de mim, o veneno foi retirado sem deixar rastros e é incapaz de me ferir”. Ele vai comer apenas comidas apropriadas, a ferida não irá infeccionar. De tempos em tempos ele lavará a ferida e a abrirá para que o pus e o sangue não se sobreponham à ferida. Ele não andará no vento, sol, poeira ou sujeiroa para não infeccionar a ferida. Ele cuidará da ferida e verá como a ferida se curará. Assim, por ambos cuidados, a ferida se curará e, porque curada, será coberta com pele, e ele não morrerá e nem sentirá sofrimento.
Assim, também Sunakkhatta, é possível com alguns bhikkuns pensarem sobre isto: “O desejo tem sido chamado de Flecha por um Recluso; o humor envenenado da ignorância é espalhado por seu próprio desejo, luxúria e desejo doente. A flecha do desejo foi retirada de mim; o veneno da ignorância foi expelido. Sou um dos que completaram a intenção de Nibbana”. Ser um daqueles que realmente realizaou o Nibbana, ele não perseguirá aquelas coisas que não se conformam completamente com a intenção do Nibbana. Ele não perseguirá a visão de coisas inadequadas para os olhos, não perseguirá sons com o ouvido, cheiros com o nariz, sabores com a língua, coisas tangíveis inadequadas para o corpo ou coisas inadequadas para a mente. E porque ele não persegue tais coisas inadequadas para os olhos e inadequadas para a mente, a luxúria não invade sua mente. Porque sua mente não é invadida pela luxúria, ele não incorrerá na morte ou no sofrimento.
Sunnakkhatta, ofereci este sorriso na intenção de prover um significado. O significado é este: “Ferida” é um termo para as seis bases internas. “Humor envenenado” é um termo para ignorância”. “Flecha” é um termo para desejo. “Sonda” é um termo para a vacuidade. “Faca” é um termo para sabedoria” “Cirurgião” é um termo para Tathagata, aquele que Alcançou, o plenamente iluminado.
Nestes ensinamentos, Buda inicia a partir das visões e crenças das pessoas para quem ensina. Ele guia-os a questionar suas próprias visões e crenças para uma extensão necessária para seu ensinamento e para um nível importante para a liberação deles.

10.  A história do Sutra e a questão de sua autenticidade
O Surangama Sutra na Índia
O período na índia anterior à transmissão do Sutra na China no começo do século VIII foi cercado por fragmentação política e social e uma severa restrição social. O país estava dividido em muitos reinos feudais, com um grande número de chefes truculentos e pela insurgência de influências tribais. O Budismo estava em perigo de perder suas tradições sociais e estava enfrentando novos desafgios dos Hindfus, praticantes do tantrismo Saivite que florescia no sul da Índia. Este foi o contexto inicial do florescimento do Budismo esotérico indiano ao lado das tradições siddha. Desafios morais e confusão cresceu nas sociedade secular e nas comunidades budistas. Feiticeiros poderosos – tribais, saivite e auto denominados budistas – cresceram seus poderes e tentaram modificar os preceitos fundamentais da vida monástica. Nesta atmosfera, pode-se explicar por que o Surangama Mantra foi especial para explicar os problemas na Índia. Talvez este seja o motivo, conforme as tradições contam, que o Sutra foi considerado um tesouro.

Preocupações com a autenticidade do Sutra
A autenticidade do Sutra Surangama foi posta por alguns estudiosos modernos que dizem que o texto deve ser uma tradução chinesa. A data da tradução foi questionada e anomalias textuaus podem sugerir a interpolação de elementos culturais puramente chineses. Existem razões fortes para acreditar que o texto original é indiano. É verdade, por exemplo, que durante as primeiras centenas de anos do Budismo na China, textos budistas corruptos circularam, quando a tradução do sutra foi completada, estudiosos monásticos chineses tornaram-se suficientemente hábeis em reconhecer textos inautênticos.
Enquanto alguns detalhes do texto parecem surgir de um contexto chinês, eles podem representar meramente as escolhas feitas pelos tradutores para substituir os equivalentes chineses ou análogos para pessoas pouco familiarizadas com os elementos indianos presentes no original. Um exemplo disso é a aparição dos mestres ascéticos da parte IX, em conjunto com uma lista de categorias dos seres. Os chineses usam os caracteres xian para estes mestres ascéticos. Este ‘xian”, geralmente traduzido como”imortal” é o caractere chinês para os mestres de longa vida da tradição Daoísta chinesa. A apariçã de uma palavra claramente Daoísta levaram alguns estudiosos a questionarem que o Suramgama foi composto na China. Uma explicação muito mais plausível e também mais simples é que o original indiano ‘rsi’ refere aos hindus ascetas santos. Os tradutores chineses sensivelmente trocaram ‘rsi’ por ‘xian’, supondo que ambos são ascetas, se não precisamente equivalentes, ao menos ocupantes de lugares espirituais semelhantes em suas respectivas sociedades.
A presença de dois elementos indianos mostra a origem indiana do texto. Um destes, já mencionado aqui, é a presença da lógica indiana budista em muitos silogismos e o uso da negação em quatro partes. A outra é o Surangama Sutra, que o chinês não traduziu e que reside no coração das instruções do Sutra para o caminho espiritual.
Tendo considerado a autenticidade do Surangama Sutra pelo ponto de vista da edótica e da crítica textual para textos religiosos, é importante considerar a própria tradição do Sutra. Qualquer que seja a origem e proveniência do texto – se esta pergunta puder mesmo ser respondida – um fato não é discutível: o Surangama Sutra foi amplamente aceito na China como canônico por quase mil anos. Tal aceitação reflete uma visão de que o texto religioso pode ser medido por sua eficácia como um guia moral e espiritual em suas práticas. A partir desta pragmática, o Surangama Sutra pode ser corretamente reconhecido como autêntico simplesmente por gerar os avançados praticantes e seus estudantes e discípulos, com suas respectivas reverências ao texto. Eles seguiram suas instruções, explicaram estas instruções para outras pessoas como prescrições confiáveis para a purificação moral e espiritual que auxiliam no avanço espiritual. Nas mentes de muitos admiradores, a validade do Sutra e a importância não depende do quanto o texto represente um amontoado de palavras falados por Buda Shakyamune no dialeto Magadhan do sânscrito no lugar hoje conhecido como Uttar Pradesh. A partir deste ponto de vista, a incerteza sobre a história textual do sutra não é uma causa para dúvidas sobre sua ve4rdade ética e espiritual.

Considerações sobre a transmissão para a China
O venerável mestre Hsüan sumarizou a tradição de transmissão do sutra da Índia para a China do seguinte modo:
“ O rei de uma das regiões da Índia proclamou que o Surangama Sutra era um tesouro nacional porque foi um dos Sutras que o Bodhissattva Nagarjuna trouxe para o palácio do Dragão. Após a proclamação, nenhum poderia tirar o sutra do país. Ao mesmo tempo, Bhiksu Paramiti tentou levar o sutra para fora do país, especialmente para a China. Ele levou uma cópia do sutra para a China e foi parado por oficiais na fronteira. Ele retornou para casa e pensou em um jeito de levar o sutra. Finalmente, ele encontrou a saída. Ele escreveu o sutra em pequenos caracteres com uma tinta muito suave, enrolou-o e selou-o com cera. Ele abriu seu braço e inseriu o pergaminho abaixo de sua ferida. Em seguida, ele aplicou remédios na ferida para que ela curasse. (Algumas pessoas dizem que o sutra foi inserido em sua perna, mas eu penso que este não seria um lugar respeitável para o texto – abaixo dos quadris – ele possivelmente escolheu um lugar na parte superior do corpo). Quando a ferida se curou, ele foi para a China e passou pelos oficiais da fronteira sem algum incidente. Eventualmente, ele chegou em Guagdong, onde encontrou o oficial Fang Yong, que o convidou para ficar no templo de Guangdong enquanto traduzia o sutra”.

11.  Uma breve explicação de alguns termos técnicos importantes
Para aqueles que sejam novos aos ensinamentos Budistas, oferecemos um breve explicação de termos importantes e conceitos mencionados no Sutra.

No-Self
O ensinamento do no-self é fundamental para o budismo. Buda não ensinou que nós não existimos, mas ele ensinou que o sofrimento é causado por nosso apego ao self, uma individualidade ilusória que não existe. O que é o self que não existe? Não é apenas a nossa personalidade ou nosso ego, que se identifica em termos de regras sociais e interações. O budismo nega a existência de um self básico que pode ser identificado com nosso ser físico, incluso aqui o nosso gênero, e também com a existência do que é chamado “alma” e ioutros níveis de selfs espirituais. A existência de um self como uma consciência cósmica que seja identificado com o universo também é negado. Todos os “selfs” são construções, designações convencionais que só podem contribuir para o nosso apego à ilusão. A verdadeira realidade que existe e aquela que nós verdadeiramente somos reside além de nosso apego à dualidade do self ou qualquer outra dualidade de existência ou não existência.

Iluminação ou Despertar
Neste volume, utilizamos o termo inglês “iluminação” e “despertar” como sinônimos. No Budismo, quando estes termos são utilizados em seu sentido formal, eles não conotam uma experiência temporária, mas uma completa e irreversível transformação de um jeito de ser do Ser no mundo. Apenas através a iluminação de Buda é perfeita e completa. Bodhissatvas, Sábios Solitários e Arhats despertaram, mas não possuem a perfeição de seu despertar. Todos os seres iluminados possuem três vitórias em comum: eles viram através da ilusão do self, alcançaram vitória permanente sobre a morte e sobre o renascimento e como subproduto de sua iluminação eles possuem poderes espirituais. Em sânscrito, a palavra bodhi pode ser traduzida como ‘despertar completo’ e refere neste texto como o despertar ou iluminação de um Buda.

Darma e Darmas
No Budismo, ‘Darma” não possui mais o sentido Hindu de obrigações espirituais de acordo com sua classe. No uso budista, a palavra possui muitos significados:
1)      É um termo geral para os ensinamentos de Buda como um todo (o Darma ou Buda Darma) e pode designar um ensinamento particular, usualmente um método ou prática que leva à iluminação.
2)      Significa a realidade que o ser encontra na iluminação – ou sejua, a realidade fundamental que é emanente no universo inteiro (O reino do Darma)
3)      É um termo para os componentes individuais de um ensinamento, geralmente um item em uma lista. Ao lado deles existem listas das várias divisões do mundo mental e físico. Algumas vezes, traduzimos darmas neste sentido como ‘fenômenos’.
4)      É um termo para as informações que entram em nossa mente pelas faculdades da percepção e para os pensamentos e emoções que surgem em nossas mentes e que são identificadas pela faculdade da cognição. Traduzimos ‘darma’ neste sentido como ‘objetos mentais’ ou objetos de cognição.

Samadhi
Samadhi é ‘um concentrado, recolhido, estado de mente e meditação que, concomitante com um jeito certo de viver, é condição necessária para atingir uma visão mais elevada e emancipação’.
Existem quatro sentidos distintos para o uso da palavra samadhi. Primeiro, ela designa o uso correto do foco mental ou concentração que é necessária para atingir estados mais profundos de meditação. Segundo, samadhi indica aqueles níveis mais profundos de concentração mental e estabilidade que podem ser alcançadas através de uma prática correta. Estes níveis incluem os quatro dhyanas, que correspondem aos estados de mente dos deuses nos estados do céu e aos quatro samapattis, que correspondem ao estado de mente dos deuses que planos da ausência de forma. Terceiro, existem níveis mais profundos de samadhi que são experimentados por seres iluminados. Quarto, samadhi também pode referir especificamente ao Surangama (o Indestrutível), que é o estado de mente de todos os Budas e que é discutido na profundidade deste sutra.

Vacuidade
Existem ao menos três caminhos pelos quais a ideia de vacuidade pode ser compreendida: no nível intelectual, na prática e como uma descrição da iluminação.
No nível intelectual, pode-se dizer que a vacuidade significa que em todos os darmas – todos os fenômenos, mentais e físicos – falta uma independência existente em si mesmo e eles existem apenas em dependência com outros fenômenos. Todos os darmas faltam um pouco dos atributos reais, permanentes e essenciais que os distinguem de todos os outros fenômenos. Em outras palavras, tudo no mundo, ambos físicos e mentais, são interdependentes. Nada existe inteiramente em si mesmo, separado, e com nenhuma relação causal com alguma outra coisa. Todos os darmas são vazios de algo individual, inerente ao ser.
Uma compreensão da vacuidade pode ser extendida em um método de prática e em um modo de viver o vazio em nossa experiência do momento. “Esvaziar nossa experiência” significa, primeiramente, remover o “eu” e “meu” de cada pensamento que surja na nossa consciência. A contemplação mantida do vazio do self pode liberar-nos do centramento do ego e liberar-nos da prisão do egoísmo. Aprendemos a ver nós mesmo e nossas preocupações, nossos desejos e medos, como vazios – como uma miragem ou um sonho, como uma bolha efêmera ou um flash de luz. O Sutra do Diamante diz:
Como estrelas, uma falta de visão, como uma lâmpada
Uma simulação enganosa, um cair do orvalho, ou uma bolha
Um sonho, um raio de luz ou uma nuvem
Assim aquele deve ver o que é condicionado.
Esvaziarmos a nós mesmos abre-nos para a completude do mundo.
A experiência do esvaziamento também elimina as fronteiras que desenhamos para lidar com o mundo – as paredes que erigimos para proteger a nós mesmos, a relva que colocamos para fora, e as fantasias das conquistas futuras que mapeamos em nossas mentes. Esvaziando a nós mesmos deve levar-nos a esvaziar o ‘outro’, o ‘no-self’, e, assim, aquele self e o outro não serão mais dois. Quando a linha que divide os dois é apagada, não existe conflito e nada a temer ou ganhar.
Com a iluminação, surge a realização de que a verdadeira vacuidade é idêntica ao preenchimento de uma maravilhosa existência. Isso pode ser alcançado através de um trabalho duro sobre como ser consciente sobre cada pensamento e esvaziar cada um deles, um por um.

Os cinco agregados
A palavra ‘agregado’ em sânscrito é ‘skandha’, que significa ‘pilha’ ou ‘agregação’. (Uma vez, Buda ilustrou em seus ensinamentos sobre os agregados com cinco pilhas diferentes de gramas).
Os cinco agregados – forma, percepção sensória, cognição, formações mentais e conscienciosidade – são categorias gerais que juntas incluem tudo o que nós experimentamos no mundo psico-físico. Por isso eles podem ser ferramentas bem efetivas para o entendimento dos ensinamentos do no-self. Se alguém analisar todos os aspectos do que sente para ser o self de alguém, é possível perceber que tudo se organiza nos cinco agregados.
Mais especificamente, o agregado da forma compreende o que nós percebemos como se fosse nossos corpos e o resto do mundo físico. O agregado da percepção sensória compreende as primeiras cinco faculdades da percepção – olhos, orelhas, nariz, língua e corpo – e sua ingestão das cinco categorias de informação sensória – objetos visíveis, sons, odores, sabores e objetos táteis. Nós respondemos a estas sensações com prazer, desgosto ou neutralidade.
O agregado da cognição inclui a função de identificar a informação e realizar distinções concernentes ao dado. Ela também envolve a diferenciação entre conteúdos mentais, poir isso inclui a percepção mais elevada das funções e dos processos mentais, por exemplo o uso da linguagem.
O agregado das formações mentais refere à consciência e a não consciência das forças volitivas, incluindo intenções conscientes ou atos do desejo, predisposições inatas resultando em carmas criados em nossas vidas anteriores, e forças inconscientes ligadas às funções básicas da vida, nutrição e crescimento.
O agragado da consciência é a base sutil dos agregados da percepção sensória, cognição e formação mental. Ela consiste em uma sutil distinção da consciência que distingue a consciência dos objetos de consciência.

Os dezoito constituintes
Os dezoito constituintes são as seis faculdades, os seis tipos de objetos perceptíveis, e as seis conscienciosidades. As seis faculdades são os olhos, orelhas, nariz, língua, corpo e mente.Os seis tipos de objetos perceptíveis são os objetos visíveis, sons, odores, sabores, objetos táteis e objetos de cognição. As seis faculdades e os seis tipos de objetos perceptíveis são conhecidos como “doze lugares”. Eles são lugares pois chegam aos seres das seis consciências. Ou seja, o contato entre as faculdade e os objetos é uma condição necessária para a chegada co Ser do olho-consciência, orelha-consciência, nariz-consciência, língua-consciência- corpo-consciência e mente-consciência (ver, ouvir, cheiras, saborear, sensação tátil e cognição).

Sete elementos primários
Os sete elementos primários são a Terra, que representa a solidez; água, que representa o que é líquido; fogo, que representa o calor; vento, que representa o movimento; espaço; consciência visual e conscienciosidade. Estes elementos primários são qualidades da energia da matéria assim que sejam distinguidos pela mente. Pode ser de grande ajuda pensar nos elementos primários em três níveis: primeiro, sua identidade com a Matrix daqueles-que-podem-vir-a-ser, que é a mente iluminada e a natureza verdadeira dos elementos primários; segundo, sua qualidade pura e essencial, as quais não experienciamos diretamente e terceiro o elemento primário que experimentados tão logo eles estejam misturados em várias proporções em nossos corpos e no mundo.

12.  Notas para esta tradução
Já mencionamos alguns dos desafios que envolveram a tradução para o inglês moderno este texto chinês do século oito. Talvez a maior dificuldade tenha sido a escolha dos tradutores chineses que impuseram ao texto um padrão de quatro frases. Frequentemente, para manter a métrica de quatro caracteres chineses, os tradutores acharam necessário omitir um ou mais caracteres mesmo que aqueles caracteres fossem essenciais para o entendimento do texto. Um exemplo para o leitor sobre o texto chinês é que ele frequentemente envolve uma lista com seis faculdades de percepção, ou uma lista de seis objetos. Embora os seis objetos sejam claramente declarados, dois são rotineiramente omitidos para manter a métrica em quatro caracteres (Uma complicação posterior é que nem sempre os mesmos dois são omitidos). Em geral, inserimos palavras esclarecedoras e um excerto explicativo do comentário do venerável mestre Hsüan Huan ou os sentidos omissos identificados nas notas de rodapé.
Em segundo lugar, o texto chinês possui parágrafos padronizados e o resultado da repetição tentou os tradutores chineses para trocar as repetições por uma variedade de sinônimos. O oposto também é verdade: os tradutores chineses usam um caractere para indicar uma diversidade de significados – algumas vezes na mesma sentença e até mesmo em uma mesma frase de 4 caracteres. Alguns caracteres que significam a mesma coisa traduzimos para o inglês com a mesma palavra, e uma palavra com múltiplos significados foram traduzidos por múltiplas palavras.
Terceiro, a abundância dos termos sânscritos, representado no texto por uma transliteração especializada de caracteres, é uma das presenças que mais desafia o leitor chinês ao texto. Decidimos não passar adiante essa dificuldade para a versão em inglês. Deixamos as palavras sânscritas que são familiares para o idioma inglês (como Darma, karma, nirvana e Bodhissattva) ou aquelas palavras que esperamos que sejam apropriadas pela linguagem inglesa. Anotamos as palavras sânscritas nas notas de rodapé.
Em quarto lugar, embora o texto original em sÇanscrito não seja tão extenso, quase todos os termos budistas e conceitos aparecem neste sutra e também aparecem em outros sutras, inclusos muitos dos quais sobreviveram em sânscrito. Por isso, para estes termos e conceitos, as palavras sânscritas são bem conhecidas.
Ao preparar este volume foi necessário decidir onde colocar os comentários de uma maneira que fosse tradicional na Ásia. A maioria dos textos religiosos ocidentais não possuem comentários. A Sociedade Budista de Tradução de Textos é uma exceção, tendo realizado uma grande variedade de traduções com comentários dados pelo venerável Mestre Hsüa Hua. A profundidade destes comentários significa que a tradução dos sutras mais longos, com comentários, deve seguir numerosos volumes. Este volume reúne todas as informações em um único livro. Mesmo assim, os tradutores mantiveram os comentários dada a dificuldade do texto. Foi decidido, portanto, preservar o formato tradicional da exegeses interlinear e de desenhar os excertos do venerável Mestre Hsüa Hua quando as passagens do texto solicitarem alguma explicação.
Os comentários do mestre Hsüa Hua sobre o Surangama Sutra foram proferidos em formato de palestras durante o veráo e outono de 1968 em São Francisco. As palestras foram transcritas e editadas posteriormente e foram publicadas em nove volumes pela Sociedade de Tradução de Textos Budistas. Além de expicar o próprio sutra, as palestras foram na ocasião de muitas lições sobre conduta pessoal, prática espiritual, disciplina monástica e doutrina geral budista. Estas lições, geralmente dadas em formato de histórias, são de grande valor para qualquer um que queira seguir um caminho espiritual ou simplesmente deseje uma vida melhor.Incluímos algumas destas instruções neste volume. Em sua maior parte, entretanto, e com alguma relutância, citamos neste volume-único a tradução apenas das passagens explicativas do Sutra. Por isso, os comentários para esta tradução não são de modo algum uma substituiç~]ao para o comentário completo e é apenas uma parte representativa da profundidade dos comentários em 9 volumes. Afortunadamente, o egistro completo das palestras é facilmente encontrado nas traduções da Sociedade de Tradução de Textos Budistas.
Uma palavra sobre a neutralidade de gêneros. Quando possível, trocamos os pronomes plurais neutros “eles” e “deles”. Nem sempre esta alteração foi possível. Primeiro, o Sutra consiste num diálogo entre dois falantes homens, buda Shamyamuni e seu primo Ananda. Segundo, como tradutores evitamos anacronismos na língua. Não queríamos retratar Buda falando de um modo que parecia a nós que ele não falou, por isso não utilizamos palavras derivadas da ciência moderna ou tecnologia, termos técnicos da filosofia Européia e fala casual do século XX. Foi nosso desejo encontrar uma voz para aqueles falantes que fosse formal, precisa, natural e ao mesmo tempo datada, mas atemporal. É neste contexto que esta tradução reside. Falantes ingleses se engajaram no último quarto de século em realizar uma transição para o gênero neutro – para todas aquelas frases com “ele” ou “ela” e aquelas frases com “eles”. Ao traduzir um documento que existe há tantos séculos, achamos que o uso repetido destes gêneros neutros é um anacronismo que tende a distrair sobre a naturalidade e autoridade das vozes dos falantes.
Isso não significa que o Surangama Sutra sustenta que o gênero masculino tenha vantagem no caminho espiritual. Não existe um ensinamento como este no Sutra. Na verdade, a cortesã que joga o feitiço em Ananda na abertura do Sutra e que acompanha Ananda e o Bodhissattva Manjsri de volta para a assembleia de Buda se torna iluminada durante o curso do diálogo, alcançando um nível de iluminação maior do que o Ananda. A iluminação de Yasódara, que foi a esposa de Buda Shakyamuni quando ele era príncipe, também é mencionada.
Finalmente, algumas palavras sobre o processo de tradução. Como em outros textos produzidos pelos membros da Sociedade de Tradução de Textos Budistas, a presente tradução foi feita em 4 passos distintos. Primeiro, uma tradução que foi completada por um comitê que inclui falantes do chinês e falantes do inglês. O segundo passo consistiu numa revisão acxurada de todo o texto. Depois, o texto passou por uma polida editorial para assegurar a naturalidade e consistência do estilo inglês e, finalmente, certificar da fidelidade da tradução. Observamos os esforços dos tradutores anteriores. Sem o trabalho destas pessoas, ao realizar esta tradução, teria sido mais difícil atingir este objetivo. Entretanto, apesar dos esforços destas pessoas durante seis anos e meio, reconhecemos que a tradução não está livre de erros, e pedidos aos estudantes, estudiosos, praticantes e leitores em geral que apontem quais erros podem ter ocorrido para que possamos corrigí-los em edições futuras.
Dedicamos qualquer mérito desta tradução para a paz mundial e para a iluminação de todos os seres.
Ron Epstein e David Rounda
Co-Chais, Comite de Tradução do Surangama Sutra
Sociedade Budista de Tradução






[1] (Nota com a explicação da palavra em chinês e sânscrito. Não possuo os caracteres chineses). A tradução segue assim: O Sutra (T. 945) é popularmente conhecido em chinês como Dafogind Shoulegyanjing, geralmente abreviado como Lengyanjing. O título completo é Dafoding rulai miyin xiuzheng liaoyy zhu pusa wanheng shoulegyan jing. A palavra sânscrita surangama significa “indestrutível”, ela combina as palavras suram (grande, absoluto) e gama (durável, sólido). O texto chinês translitera as duas palavras sânscrita shou leng yan. Este sutra não pode ser confundido com o Surangamasamadhi sutra (T. 642) traduzido por  Étienne Lamotte como La concentration de la marche héroique (Suramgamasamadhisutra) (Paris: Instituto Belga de Altos Estudos Chineses, 1965). A sua tradução francesa foi transposta para o inglês por Sarah Boin Webb (Richmond, UK: Curzon Press, 1998). A página 38 da tradução de Boin Webb cita a seguinte passagem do Mahayana Mahaparinirvana sutra (T. 374, ch. 27, pp. 524c’9-525ª11; T. 375, ch. 25 p. 769b1-24): “Suram significa absolutamente (ayanta) e gama significa sólido (sãra). Aquele que adquire a solidez absoluta é Surangama. É por isso que a atenção (samadhi) Surangama é a natureza de todos os Budas).
[2] Anterior a esta tradução para o inglês, a única tradução completa para a língua inglesa foi aquela da Sociedade de Tradução de Textos Budistas, com um comentário completo pelo venerável mestre Hsüan Hua, primeiramente publicado em 18 volumes em uma edição lançada entre 1977 e 1986. Uma edição revisada foi publicada entre 2000 e 2005 como The Shurangama Sutra  com um comentário do Venerável Mestre Hsüan Hua, traduzido pela Sociedade de Tradução de Textos Budistas (Burlingame, CA: Buddhist Text Translation Society, 2000-05). A primeira tradução para o inglês, com apenas o primeiro quarto dos dez pergaminhos foi feita por Samuel Beal e inclusa no A Catena of Buddhism Scriptures from the Chinese (London: Trubnet, 1871), 284-369. Uma pequeníssima porção do primeiro pergaminho do Sutra foi traduzida pelo Reverendo Joseph Edkins como o primeiro capítulo de seus Buddhism: A volume of Scketches, historical, descriptive and critical 2nd ed (London: Trubner, 1893), 289-301. Em 1938, em conjunção com Bhikshu Wai-Tao, Dwight Gordon incluiu uma severa tradução de quase um terço do sutra em seu Buddhim Bible (New York: Dutton, 1938), 108-275. Boa parte do texto foi traduzido por Lu K´uan Yu (Charles Luk), em conjunto com uma tradução do comentário do mestre Chan Hanshan Deqing, conhecida como The Sugarama Sutra (Londres: Rider, 1966). Lamentavelmente, ao omitir o Sungarama Mantra e a seção que descreve a apropriada prática do mantra, o volume de Luk em efeito fica de fora do coração do Sutra (esta seção é a parte 8 do presente volume).
[3] A passagem sobre os poderes do Bodhissattva que Ouve o Choro do Mundo rememora uma passagem semelhante do capítulo 25 do Sutra de Lótus, “Sobre o Portal Universal”. O Surangama Sutra, ao contrário do Lótus Sutra, explica como o Bodhissatva ganhou aqueles poderes.
[4] A quinta conduta moral é se abster de intoxicantes.