sábado, 26 de agosto de 2017

A. Ananda propõe que a mente está no corpo

 Continuação da Tradução do Surangama Sutra, comentado pelo venerável mestre Hsuan Hua. Versão em inglês disponível em: 
http://www.weebly.com/uploads/6/3/3/1/6331706/surangama_new_translation.pdf
Este é um exercício de tradução, voltado para o estudo, sem  intenção lucrativa ou monetária.

CAPÍTULO 2
A localização da Mente
A.    Ananda propõe que a mente está no corpo
’Homem Honrado pelo Mundo”, Ananda disse para Buda, “As dez classes de seres[1] em todos os mundos acreditam que a mente consciente reside no corpo; e conforme eu me lembro dos olhos azuius de lótus daquele-Que-Pode-Vir-A-Ser, eu sei que eles são parte da face de Buda. Ela é claramente uma parte de seu corpo. É evidente que os órgãos físicos que correspondem aos quatro tipos de objetos perceptíveis[2] são parte de minha faze e, por isso, minha mente consciente, também, é certamente encontrada em meu corpo”.
Buda disse para Ananda, “Agora, enquanto você sente no Caminho do Darma Daquele que Pode Vir a Ser, você pode observar o bosque do príncipe Jetri. Onde está o bosque?
“Este maravilhoso e sagrado caminho de Darma, com muitas de suas histórias, Honrado Pelo Mundo, está no Jardim do Benfeitor dos Orfãos e Sem Filhos, e o Bosque do Príncipe Jetri está fora do sagão”.
“Ananda, qual é a primeira coisa que você vê do lugar que você ocupa no pátio”?
“Homem Honrado pelo Mundo, aqui do pátio olho em primeiro lugar para Aquele-Que-Virá-A-Ser. Posso ver, também, uma grande assembleia. Daí,olho mais além e vejo o bosque no parque”.
“Por que isso, Ananda? Por que quando você olha para fora você pode ver o bosque no parque”?
“Homem Honrado pelo Mundo, já que as portas e janelas deste belíssimo pátio foram abertas, posso ver o pátio e ainda ver em distância”.
Buda disse para Ananda: “É desse modo como você disse. Alguém que esteja no pátio pode ver longe no bosque e parque quando as portas e janelas estejam abertas. Agora, pode uma pessoa que esteja no pátio não ver Buda e, ainda assim, ver o lado de fora do pátio”?
Ananda respondeu: “Isso não seria possível, Homem Honrado pelo Mundo. Não seria possível estar no pátio e ver o bosque e as fontes e não ver Aquele-Que-Virá-A-Ser”.
“Ananda, é a mesma verdade contigo. Você tem inteligência para entender a tudo perfeitamente. Se sua mente, que é clara em entendimento, estivesse dentro do seu corpo, então a parte de dentro do seu corpo seria o que sua mente entraria primeiro em contato e teria conhecimento. Existem seres que veem dentro de seus corpos antes mesmo de observar as coisas do lado exterior[3]? Mesmo que eles não consigam ver seus corações, fígago, intestinos ou estômagos, eles podem ao menos detectar o crescer de suas unhas e cabelos, a torção dos nervos e o latejar de seus pulsos. Por que, então, você não é capaz de ver essas coisas? E, desde que sua mente não é por definição visualmente cognoscente sobre o que acontece em seu corpo, como ela pode ter conhecimento sobre o que acontece fora do corpo? Assim, você pode saber que quando você diz que é a mente que é consciente e faz distinções é a que reside dentro do corpo, você sabe que isso é impossível”.
B.     Ananda propõe que a mente reside fora do corpo
Ananda se curvou e disse para Buda: “Agora que ouvi Buda (Thus-Come One) explicar o Darma desse jeito, compreendo que minha mente deve estar localizada fora do meu corpo. Por que digo isso? Por exemplo, uma lâmpada acesa em um quarto certamente iluminará primeiro o interior do quarto, e, depois, sua luz irá brilhar através da porta e alcançará os acessos do pátio além do quarto. Já que os seres não veem dentro do próprio corpo mas apenas veem pelo lado de fora, os seres se assemelham à lâmpada caso ela fosse posicionada fora do quarto, e, daí, ela não poderia brilhar sua luz dentro do quarto. Este princípio é perfeitamente claro e além de qualquer dúvida; ele conforma o último ensinamento de Buda – e, por isso, não pode estar errado, não é[4]?



[1] NA parte 9.2 abaixo, o Buda descreve doze tipos de seres conforme a maneira de seus nascimentos.
[2] Olhos, orelhas, nariz e língua, correspondendo respectivamente aos objetos visíveis, sons, odores e sabores. O quinto par – o corpo e os objetos do toque – será incluso.
[3] Conforme os ensinamentos budistas, a faculdade cognitiva age em conjunto com a faculdade da visão no processo de percepção visual dos objetos. A faculdade da visão sente o objeto e a mente reconhece o que ele é.
[4] Nesta passagem, Ananda oferece uma segunda proposição e ele leva adiante por sua própria vontade que é muito similar à primeira proposta por Buda.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

CAPÍTULO 1 A NATUREZA E A LOCALIZAÇÃO DA MENTE


 Continuação da Tradução do Surangama Sutra, comentado pelo venerável mestre Hsuan Hua. Versão em inglês disponível em: 
http://www.weebly.com/uploads/6/3/3/1/6331706/surangama_new_translation.pdf

1.      O pedido do Dharma
Quando Ananda viu Buda, ele curvou-se e chorou arrependido. Ele lamentou que, desde tempos sem início, ele devotou a si mesmo para a erudição, mas não tenha desenvolvido plenamente sua prática no Caminho. Respeitosamente e repetidamente, ele pediu ao Buda para explicar para ele os passos elementares que o levariam para alcançar as práticas maravilhosas de acalmar a mente, pensamentos contemplativos e permanência na meditação[1] - práticas através das quais Aquele-que-virá-a-ser em todas as direções se tornou plenamente desperto.
Enquanto isso, os Bodhissattvas lá estavam, em tão grande número quanto os grãos de areia do Rio Ganges, ao lado de grande Arhats, Sábios Solitários e outros seres das dez direções, todos aguardaram ansiosamente para ouvir as instruções de Buda. Eles sentaram e esperaram silenciosamente ouvir as instruções do Sábio.
Então, o Honrado-pelo-Mundo, diante de uma grande assembleia, estendeu seu grande braço dourado, circundou suas mãos na coroa da cabeça de Ananda[2], e disse para Ananda e todos aqueles reunidos naquele local: “Existe um pequeno samãdhi chamado “O Grande e Real Surangama que foi Falado do Alto da Coroa da Cebaça de Buda e que é a Perfeição das Miríades de Práticas”. É um maravilhoso caminho, um portal único no qual os Budas de todas as dez direções passaram na intenção de transcender o mundo condicionado. Vocês todos devem ouvir agora com muita atenção”. Ananda humildemente concordou e aguardou pelas instruções de compaixão.

Por que foi impossível a Ananda resistir ao feitiço maldoso, mesmo que ele já tivesse atingido o primeiro estágio de um Arhat? Ele estava praticando samadhi com sua mente consciente[3]. Quando ele escutava os sutras, ele relembrou os princípios dos quais Buda falava... Mas a mente consciente relembra que os princípios não podem guiar para uma solução fundamental, e, por isso, quando Ananda encontrou uma influência demoníaca, ele falhou em reconhecer isso... A mente consciente é o sujeito vindo a Ser o que pode ser e Deixando de Ser o que era e esta consciência ainda não é a última. Se ao invés de um indivíduo basear sua prática na busca pela verdadeira natureza na qual nenhum dos seres torna-se o Ser que Deve Ser ou não Deixa de Ser o Ser que deve Deixar de Ser, o indivíduo pode desenvolver um samadhi que nem o torna um Ser Pleno e nem o Retira do ser que Ele é. Este é o samadhi genuíno: aquele que não pode ser afetado por forças exteriores. A força de tal samadhi pode ser vitoriosa em qualquer configuração de circunstâncias, positivas ou negativas. No meio de todas elas, o Ser pode se manter constante “assim como o Ser é, pleno e para sempre luminoso”. Este é o genuíno samadhi. Se eventos felizes lhe tornam feliz e eventos tristes lhe deixam triste, isso significa que você está influenciado pelas circunstâncias. Se você se mantiver pulando da alegria para a fúria, da tristeza para a felicidade: você estará influenciado pelas circunstâncias. Ao invés disso, você deve ser como um espeho, que reflete o que aparece nele e, assim, se mantém constante. Isso é o que significa ter uma sabedoria genuína (I, 146-7).

Buda disse para Ananda, “Você e eu somos membros da mesma família[4] e compartilhamos a afeição que é natural entre parentes. No momento em que você resolveu priorizar se tornar iluminado, quais foram os excelentes atributos que você viu em meu Dharma que imediatamente levaram você a rejeitar a profunda afeição familiar e amor conjugal encontrados no mundo”?
Ananda respondeu para Buda: “Eu vi os 32 caminhos Daquele-Que-Pode-Vir-A-Ser, que são tão profundamente maravilhosos e incomparáveis que todo este corpo pode brilhar como um cristal, com uma radiação refletora imensurável. Frequentemente, pensava comigo mesmo que o corpo com tais marcas do caminho não poderia gerar a consequência de um ato de amor sexual. Por quê? As energias do desejo são grosseiras. O sexo pútrido resulta em uma imersão turva em substâncias procriativas; tais coisas não podem gerar um corpo com as maravilhosas, puras, magnificentes e brilhante concentração de luz púrpura-dourada. Por isso eu admirei o Buda e por isso eu deixei o cabelo cair de minha cabeça[5]: para que eu o pudesse seguir”.
Buda disse: “Excelente, Ananda! Todos vocês devem saber que desde tempos sem início, todos os seres passam por morte e renascimento e apenas porque eles não estão conscientes do puro entendimento que é a natureza essencial da última verdade da mente. Ao contrário disso, os trabalhos de suas mentes são distorcidos, e porque os trabalhos de suas mentes são distorcidos, eles estão presos ao ciclo da morte e do renascimento.
“Agora eu quero que todos vocês perguntem sobre a iluminação insuperável e que descubram sobre a verdade de suas próprias naturezas. Vocês devem responder minha pergunta com retidão e diretamente, porque este é o caminho daquele que Há-De-Ser em todos os lugares através das dez direções. Todos que atingiram este caminho seguiram esses passos enquanto se livraram da morte e do renascimento. Suas mentes e suas palavras eram retas e diretas e, portanto, em todos os pontos do seu progresso – do primeiro estágio ao último – eles não eram nem um pouco evasivos.
“Agora, Ananda, pergunto isso a você: quando, em resposta aos 32 caminhos Daquele-Que-Virá-A-Ser, você primeiro resolveu se manter próximo ao despertar completo, o que é isso que pode ser visto nos 32 caminhos e quem foi aquele que apreciou o caminho com delícia e amor”?
Ananda respondeu ao Buda: “Homem Honrado pelo Mundo, eu aprecio e amo os caminhos com minha mente e olhos. Porque eu vi com meus olhos as excelentes realizações Daquele-Que-Pode-Vir-A-Ser, minha mente admira e aprecia suas realizações. Desse modo, decidi me livrar da morte e do renascimento”.
Buda disse para Ananda: “É assim do modo como você diz: sua mente e seus olhos são a razão para sua admiração e prazer. Aquele que não saiba onde esteja sua mente e seus olhos não estarão aptos para vencer os desafios do engajamento com os objetos perceptíveis[6]. Considere, por exemplo: quando saqueadores invadem um país e o rei manda adiante seus soldados para os espantarem, os soldados devem primeiro conhecer onde os saqueadores estejam. É culpa de sua mente e de seus olhos que você esteja preso ao ciclo da morte e do renascimento. E, agora, estou perguntando a você: onde estão sua mente e seus olhos”?



[1] Skt. Samatha, samápatti, dhyãna.
[2] Skt. Samatha, samapatti, dhyana.
[3] Skt. Citta. Ch. Xin. A mente nas quais as distinções são feitas baseadas na ignorância.
[4] Ananda e Buda eram primos por parte de pai,.
[5] Monges budistas e freiras devem raspar suas cabeças para entrar na vida monástica. A prática continua até os dias atuais
[6] Ch. Chen lao. Esta é a primeira menção de um tema no qual Buda retorna frequentemente no Sutra: os desafios e cansaço que se atinge inevitavelmente como resultado na imersão no mundo dos sentidos. O tema é desenvolvido completamente nas partes IV e V.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

SUTRA SOBRE O SURANGAMA MANTRA QUE FOI FALADO ABAIXO DA COROA DA CABEÇA DO GRANDE BUDA SOBRE AS BASES ESCONDIDAS DAS MIRÍADES DE PRÁTICAS BODHISSATTVAS DAQUELES-QUE-PODEM-VIR-A-SER QUE NOS LEVA A VERIFICAR AS VERDADES ÚLTIMAS

SUTRA SOBRE O SURANGAMA MANTRA QUE FOI FALADO ABAIXO DA COROA DA CABEÇA DO GRANDE BUDA SOBRE AS BASES ESCONDIDAS DAS MIRÍADES DE PRÁTICAS BODHISSATTVAS DAQUELES-QUE-PODEM-VIR-A-SER QUE NOS LEVA A VERIFICAR AS VERDADES ÚLTIMAS

Continuação da Tradução do Surangama Sutra, comentado pelo venerável mestre Hsuan Hua. Versão em inglês disponível em: http://www.weebly.com/uploads/6/3/3/1/6331706/surangama_new_translation.pdf

Traduzido para o Chinês durante a Dinastia Tang pelo monge Ancião Paramiti da Índia Central. Revisado pelo monge ancião Meghasíka de Uddiyana. Verificado por monge ancião Huaidi do Monastério Nanlou em Mt. Loufou.

Prólogo
A ocasião de ensinamento[1]
Assim ouvi[2]: em um momento, Buda estava na cidade de Sravasti em um sublime encontro no Bosque com o príncipe Jetri[3], junto com um grande número de monges[4], 250 no total. Estes discípulos de Buda eram grandes Arhats, livres de oscilações[5], eles se prenderam ao Darma e o sustentaram. Eles transcenderam completamente toda a existência e seu perfeito comportamento inspirou temor em todos os lugares em que íam. Eles seguiram Buda ao girar a roda do darma[6] e foram supremamente dignos do que Buda concedeu a eles. Severos e puros na aderência ao código monástico[7], eles eram ótimos exemplares para os seres nos três reinos da existência[8]. Para liberar os seres, eles apareceram em incontáveis corpos em resposta àquilo que os seres necessitavam e, no futuro, eles poderiam resgatar outros seres, que, por sua vez, poderiam transcender do fogo de seus apegos aos objetos sensórios.
Os líderes Arhats foram Shariputra, grande em Sabedoria, e MahaMaudgalyãyana, Mahã-Kausthila, Purnamaitrayaniputra, Subhuti, Upanisad e outros. Incontáveis Sábios Solitários, que não precisavam de mais instruções[9], assim como outros seres que apenas recentemente decidiram atingir a completa iluminação[10], também foram até o local onde Buda e os monges estavam. Foi durante os Dias do Desabafo (Unburdening[11]) na conclusão do retiro de verão. Bodhissattvas de todas as dez direções[12] estavam lá reunidos também; eles desejavam aconselhamentos para resolver suas dúvidas[13]. Todos estavam respeitosos e obedientes para o inspirador e compassivo Que-Virá-A-Ser enquanto eles mesmos se preparavam para compreender os sentidos ocultos.
Pessoas que se tornaram iluminadas são livres de oscilações: as oscilações do desejo, as oscilações da existência e as oscilações da ignorância. Porque eles são livres de oscilações, eles não caem no reino do desejo, no reino das formas e no reino além das formas. Nós, pessoas, lidamos agora com o reino do desejo... Ele é denominado reino do desejo porque as pessoas nele possuem desejos por coisas materiais ou por sexo, desejos que eles não conseguem colocar um ponto final... As oscilações da existência são sofridas por seres que estão além destes desejos e que lidam com os paraísos dos reinos das formas... Estes seres ainda não conseguem controlar os seus desejos por uma experiência corpórea... Além destas duas oscilações, e da maior das três, há a oscilação da ignorância, que é a fonte de todas as aflições. Quando esta oscilação acabar, as outras duas também cessarão (I, 99-100)[14].

Aquele-que-virá –a-ser[15], tendo arranjado seu assento, sentou quieto e pacificamente, e, aí, para o benefício de todos na plateia, falou sobre o profundo e sobre o misterioso. A assembleia, pura em mente e no corpo, aprendeu naquele Banquete do Dharma, o que eles não sabiam antes. A voz Imortal foi como o chamado do pássaro kalavinka[16] e podia ser ouvido em mundos através das dez direções. Existiam tantos Budas quantos grãos de areia no Ganges reunidos no lugar do despertar, com Mañjusri como seu líder.
O Rei Prasenajit, no aniversário do dia de luto do seu pai, o último rei, organizou um festival vegetariano no hall de banquetes do palácio. Ele convidou Buda e Aquele-que-virá-aser em pessoa para comer uma variedade de guloseimas. Ele tamb´rm convidou os grandes Bodhissattvas. Enquanto isso, na cidade, os mais velhos e outros haviam também preparado comidas para Sangha[17] e eles aguardaram a chegada de Buda para receber suas oferendas. Buda direcionou Muñjusri para designar os Arhats e Bodhissattvas para aceitarem as comidas vegetarianas puras que os doadores ofereciam.
Quando doadores ofertam para as Três Joias – Buda, Dharma e Sangha – eles plantam sementes que crescem e amadurecem como bênçãos no futuro. Assim, pessoas que entraram na vida monástica são chamadas “campos para bênçãos”. Pessoas que participam das recompensas de muitas bênçãos são plenamente satisfeitas. Aqueles que sentem que suas bênçãos não são suficientes devem realizar mais oferendas para as Três Joias (I, 130).

Apenas Ananda estava atrasado para o compromisso do Sangha. Mais cedo, ele havia viajado para uma distância na intenção de aceitar um convite especial e não havia retornado. Nenhum monge mais treinado[18] o estava acompanhando como professor e ele retornava sozinho pelo caminho.
Ananda vai passar por tribulações, e a razão disso é que ele estava sozinho. Ele havia aceitado um convite especial... Basicamente, monges não devem aceitar convites especiais... A regra do Budismo é que todos os membros da Sangha em uma comunidade particular devem ser convidados como um grupo... Além disso, membros da Sangha devem viajar sempre ao menos em pares, embora algum entre eles que tenha a samadhi mais forte possa realizar atividades por si mesmo (I, 126-8).

Até então Ãnanda não havia recebido nenhuma oferenda. No tempo apropriado, ele pegou seu pote de pedido e, enquanto caminhava pela cidade, aceitou oferendas em ordem sequencial[19]. Enquanto recebia esmolas do primeiro ao último doador[20], ele pensou consigo mesmo que poderia aceitar comida pura de qualquer pessoa, não apenas dos honoráveis da família Ksatriyas[21] e outros de classes puras, mas também dos Candãlas[22] e outros que eram considerados impuros. Enquanto praticava imparcialidade e compaixão, ele não iria favorecer apenas as gentes mais humildades; ele estava determinado para assistir todos os seres para criarem méritos além das medidas. Ananda sabia que Aquele-Que-Virá-A-Ser, o Ser-Honrado-pelo-Mundo[23] havia admoestado os Arhats e Subh~uti e Mahãkãsyapa por terem sido preconceituosos com os doadores de esmolas. Ananda reverenciou as instruções Daquele-que-virá-a-ser: que as esmolas fossem recebidas imparcialmente e assim as pessoas não seriam levadas a duvidar ou a caluniar.
Por que Ananda queria praticar a imparcialidade e compaixão durante seu período de pedir esmolas? Mais cedo, ele ouviu Buda repreender Subh~uti e Mahãkãsyapa sobre seus modos de receberem as esmolas... Era da opinião de Subhuti que ele deveria receber esmolas exclusivamente dos ricos, na base de que pessoas com dinheiro poderiam criar mais mérito... porque se eles não fizerem oferta alguma em vida, eles não terão dinheiro algum na próxima vida... Mahãkãsyapa, por outro lado, recebia esmolas exclusivamente dos pobres. Ele pensou: “Pessoas sem dinheiro algum criam méritos através de suas boas intenções, assim na próxima vida eles poderão ser ricos e honrados. Se eu não os ajuda-los recebendo esmolas deles, assim, na próxima vida e no futuro, eles continuarão a serem pobres”. Eu acredito que existe outra razão sob o comportamento deles. Parece justo dizer que Subhuti gostava de comer boa comida e Mahãkasyapa, entre outros discípulos de práticas ascéticas, comiam o que alguns não aguentavam e suportavam o que alguns não conseguiam suportar (I, 130-1).

Tendo passado pelo fosso da cidade, Ananda caminhou vagarosamente para os portões exteriores, à sua maneira apropriada enquanto ele seguia estrita e respeitosamente as regras de aceitar comida pura. Porque recebia esmolas em sequência, ele, por chance, passou por uma casa de cortesãs e lá ele foi assaltado por um artifício poderoso. Paraíso[24], uma jovem mulher Matanga seduziu Ananda para sua cama. Lá, ela o cuidou lascivamente, até o nível em que os poderes de seus votos[25] estavam no limite de serem quebrados.
Sabendo que Ananda estava sucumbindo na influência carnal do feitiço, Aquele-que-virá-a-ser terminou sua refeição imediatamente e retornou para os terrenos monásticos. O Rei, seus ministros mais experientes, os idosos e outros laicos, desejosos de ouvir a essência do Darma, seguiram logo após Buda. Assim, da coroa de sua cabeça[26] o Honrado-pelo-Mundo soltou quatro luzes invencíveis que brilhavam como centenas de pedras preciosas. Buda Shakyamune apareceu naquela luz como um Buda, sentado em uma posição de flor de lótus com uma centena de pétalas sagradas, e proclamou um mantra espiritual poderoso[27].
O Surangama Mantra é o rei dos reis dos mantras. Ele é extremamente importante. Estudantes do Darma de Buda que podem aprender este mantra em suas vidas presentes viverão uma vida preciosa e não desperdiçarão sua vida em vão (I, 97-8).

Buda instruiu Manjusri a ir até Ananda e protege-lo com um mantra espiritual poderoso e, uma vez que o mau feitiço fosse vencido, Manjusri deveria dar apoio a Ananda e também para a jovem Matanga, e encorajar ambos a retornarem com ele para onde o Buda estaria.



[1] Como mencionado na introdução, esta divisão e todas as subdivisões foram adicionadas pelos tradutores para acrescentar o entendimento.
[2] “Eu” refere a Ananda, o primo e discípulo de Buda Shakyamunni, que recitou os ensinamentos de Buda para uma assembleia de discípulos iluminados após o nirvana de Buda. Ele é protagonista e narrador deste Sutra.
[3] O bosque foi doado para Buda pelo príncipe Jetri. Foi parte do parque chamado Jardim dos Beneficiadores dos Órfãos e das Crianças sem Pais. O parque foi doado para Buda pelo lama budista Anathapindada.
[4] Sânscrito: bhiksu. Um monge budista plenamente ordenado. A forma feminina em sânscrito é bhiksuni. Em chinês: biqiu.
[5] Em sânscrito: anãsrava. “Oscilações” refere-se ao desprendimento de energia em direção a objetos que algum percebe, incluindo objetos de desejo.
[6] O que seja, ensinar utilizando as palavras de Buda.
[7] Vinaya.
[8] O reino do desejo, o reino da forma e o reino além da forma. Veja mais na parte 9,11.
[9] Em sânscrito, asáika. Chinês, wu xue. Aqueles que não precisam de mais instruções são os Sábios Solitários e os Arhats do quarto estágio, em oposição aos sáika (chinês, you xue). Arhats, que estão ainda nos três primeiros estágios e ainda precisam de instruções – inclusos Ananda, que é foco no sutra, está no primeiro estágio no começo do sutra.
[10] Em sânscrito, Bodhi. Em chinês, pu ti. Completa iluminação.
[11] Skt. Pravãrana, os dias finais do retiro monástico durante o período chuvoso.
[12] As dez direções são: norte, sul, leste, oeste, noroeste, nordeste, sudeste, sudoeste, acima e abaixo.
[13] Eles não compreendiam as “Bases Escondidas” mencionadas no título do Sutra.
[14] Este é o primeiro excerto do Vem. Mestre Hsüa Hua citado no presente volume. Para assegurar uma clara distinção entre as passagens do texto do Sutra e das passagens do comentário, os excertos dos comentários possuem outra parafragação e outra fonte. As referências, dadas em parênteses ao final de cada passagem ou comentário do parágrafo, cita o volume e o número de página no qual os excertos podem ser encontrados na edição de 2003 deste Sutra editado pela Sociedade de Tradução de Textos Budistas. Os excertos foram editados com brevidade e conforme a presente tradução.
[15] Skt. Thatãgata. Ch. Ru lai, um título honorífico para o Buda.
[16] O kalavinka é um pássaro indiano com um canto puro e penetrante. O “Imortal” é Buda.
[17] A palavra sânscrita sangha significa “comunidade”. Aqui – e mais frequentemente nas tradições budistas asiáticas – Sangha refere especificamente à comunidade monástica de monges e freitas, ambas plenamente treinadas e ordenadas.
[18] Skt. Ãcãrya, um exemplar no seguimento das regulações monásticas.
[19] Ou seja, sem pular nenhuma das casas de sua rota.
[20] Skt. Dãnapati, doador de esmolas.
[21] A classe real e guerreida da Sociedade Antiga Indiana.
[22] Uma tribo de banidos da sociedade Indiana.
[23] Skt. Bhagavãn. Ch. Shi zun, um título honorífico de Buda.
[24] O Paraíso de Brahma pertence ao reino da forma e corresponde ao nível da meditação focada (single-minded) conhecida como a primeira dhyãna. Veja a parte 9.11 b.
[25] Ch. Je ti. A frase indica que a força moral que cresce ao receber e ao seguir os preceitos budistas.
[26] Na coroa da cabeça de Buda existe uma carne proeminente (Skt. Usnísa), que é a primeira das 32 distintivas marcas que são características dos corpos de todos os Budas.
[27] Surangama Sutra, veja a parte 8. Os mantras são, em geral, frases faladas nas quais os significados primários não são cognitivos, mas aqueles significados e poderes sustentam-se em um nível espiritual que transcende o entendimento verbal ordinário.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Considerações sobre O que é a consciência dos justos?

Anotações e impressões de leitura sobre os livros Kaballah e as chaves secretas do universo e Árvore da  vida: a arte de viver segundo a Cabala, de Joseph Saltoun.

Houve um homem que enganou a todos. Em cada sentença dita havia uma pegadinha para levemente ludibriar seu próprio pensamento e o pensamento do outro. Este homem foi meticulosamente estudado por um médico. Profundamente irritado e ofendido pelas mentiras ouvidas, o médico cedeu as memórias sobre o contato com seu paciente para que os leitores averiguassem o valor daquelas ficções como mentiras ou verdades. O paciente era dono de uma erudição refinada. Conseguia unir Luciano de Samósata e Freud em uma única frase. Afinal, o que o paciente contava ao seu médico? A qual crença ou credulidade servimos quando nos dispomos a ouvir e a falar? Quem tinha mais consciência do gesto de interlocução: o médico ou o paciente? Este é o mote inicial do romance A consciência de Zeno, escrito por Italo Svevo nos anos 70 do século XX.

Svevo é um autor singular. Remonto de memória as informações lidas nos últimos anos e é bem possível que eu recaia na ilusão de Zeno: muitas frases deste texto podem ser meras ficções. Não sabemos quase nada sobre o autor: ele usa um pseudônimo, é possível que seja italiano e decidiu escrever livros sem outorgar para si o título de autor. Não recordo de ter conhecido outros estudos que indiquem informações mais precisas sobre a arqueologia de Svevo e tampouco sobre sua prática de escrita.

O romance A consciência de Zeno inicia com uma confissão de um médico irado com as memórias contadas pelo paciente Zeno. O médico fornece aos leitores todas as memórias de Zeno e, furioso, concede o julgamento das memórias ao próprio leitor, pois ele próprio não sabia mais se aquelas histórias eram verdadeiras ou falsas. A carta inicial do romance intriga, pois não há possibilidade de reconstituir o que seja real. Será que Svevo conseguiu aquelas anotações e, com isso, construiu o seu romance? Será que Svevo escreveu aquela carta e fingiu haver um médico que orientou Zeno?

Em qual possibilidade devo acreditar? Tenho tendência a crer na segunda possibilidade. Para orientar minha escolha, lembro que o mesmo recurso ficcional foi utilizado por João Ubaldo Ribeiro, em seu volume sobre a Luxúria, no romance A casa dos Budas Ditosos. João Ubaldo diz que recebeu em seu apartamento um pacote com muitas anotações das aventuras luxuriosas de uma mulher. Não sabemos se o pacote é verdadeiro ou não. 

Por curiosidade, li o livro - de preferência até a última página - para averiguar as memórias destes seres inventados, não existentes. Para mim, um romance funciona como uma grande porta para compreender o que é viver, o que é ser humano. O mote do romance A consciência de Zeno indica, para mim, uma pergunta muito cara: o que é a consciência humana? 

As histórias de Zeno colam fragmentos de ficções da literatura ocidental: passagens dos autores gregos do terceiro século antes de Cristo se misturam a autores românticos do século XIX. A angústia do médico é não ter percebido as mentiras deslavadas de Zeno como um traço comum a qualquer narrativa romanesca. Zeno ocupa o tempo do médico contando longamente sobre o voo de um mosquito associando este ato ao seu tédio; relatando o desgosto em conviver com o parceiro do seu amor antigo (tema recorrente em romances russos) e justificando a inveja que Zeno sentia das altas habilidades deste homem. Todas estas histórias são contadas como se fossem vividas pelo próprio Zeno. Não foram: tudo era ficção. O artifício de Svevo é engenhoso, pois ele criou uma consciência ficcional ao mesmo tempo nova e repetida, a partir da invenção de histórias escritas anteriormente por outros autores. Com essa bricolagem de assuntos ficcionais, Italo Svevo leva adiante a tarefa de mostrar uma consciência de um homem: atual e ancestral. A consciência de Zeno vagueia, aprofunda pensamentos, conta histórias, demonstra desejos, intui... E, na interpretação do médico, mente. É ilusória.

O engenho de Svevo não faz referências a nenhum dos textos lidos e reescreve-as de um jeito novo e original. O leitor com um grande repertório lerá o romance como uma grande piada sobre a produção literária ocidental com mais de dois mil anos de existência. O leitor com um repertório mediano lerá o romance como uma história de um homem comum, entregue às vicissitudes diárias e aos desgostos do viver. O leitor que entrar no livro com a informação de que ele possui “chaves para entender a literatura”, passará o tempo procurando os códigos: afinal, de qual Literatura Svevo fala aqui? Qual o autor ele cita? A posição do leitor vai determinar se a leitura de A consciência de Zeno é divertida ou “mais uma leitura chata”.

Independente das expectativas de leitura, a proposta de Svevo é mostrar o funcionamento de uma consciência.  Confesso que saí do romance sem a resposta sobre o que seja a consciência. Será que somos essa coleção de histórias? Há necessidade de colecionar histórias para Ser? Afinal, o que é a consciência?

É neste ponto que me proponho a tecer alguns comentários sobre a consciência dos justos, conforme a Cabala explicada por Joseph Saltoun. Não é minha intenção hermenêutica unir a cabala à interpretação do romance de Svevo. A lembrança das impressões de leitura sobre A consciência de Zeno talvez sejam meras divagações. Todos sabemos que esta vinculação destoa do rigor científico literário. A vontade, aqui, é apenas falar sobre assuntos lidos nos últimos tempos, todos referentes à questão “O que é a consciência”.

Nos livros Kaballah e as chaves secretas do universo e A Árvore da Vida: a arte de viver segundo a Cabala, Joseph Saltoun explica longamente sobre a consciência dos justos  e sobre a consciência dos perversos. Os princípios são simples: para atingirmos a consciência do justo, devemos aceitar sobre nós todo julgamento e doar para os outros toda a misericórdia.
Nos textos de Joseph Saltoun, lemos como é fácil atingir a luz divina: ela é acessível a todos. A luz divina é generosa e está à disposição para qualquer atribuição que qualquer pessoa deva fazer na vida. A Luz Divina chega (1) à consciência (2) dos justos e dos (3) perversos. São três conceitos bem interessantes. Nesse ponto, aparece a primeira encruzilhada. O que é consciência? O que é justo? O que é a consciência do justo?

Com estas perguntas em mente, recordei sobre o romance de Svevo e outros textos lidos. Por exemplo, lembrei de Lacan, em seu III Seminário, quando há uma explicação sobre a psique do perverso recontando o caso do Homem dos Ratos, de Freud. Não me alongarei na explicação do caso, ele é facilmente acessado em vídeos no youtube ou pela própria leitura. Se entendi bem, neste Seminário Lacan explica como a linguagem é ao mesmo tempo estrutura para nossas histórias contadas e estruturante do jeito como acessamos essas histórias. Há, portanto, uma dupla face na linguagem, sim? Acessando o conteúdo dessa estrutura-estruturante, aquele que se propõe a analisar a própria consciência, observando um momento na vida em que se sentiu ofendido, chegará – repentinamente ou não – à conclusão de que “o canalha” – aquele que me fez mal – é apenas uma pessoa que impediu o meu desejo de seguir adiante. Há um lugar onde o impulso é não-agir e onde a responsabilidade do meu “desejo ofendido” é minha, não do outro. Recuperei Lacan porque a vida não é roteirizada como um romance.  

Este texto veio à minha memória, pois Joseph Saulton dedica boas páginas do livro a explicar por que não devemos assumir a posição de "justos", pois a mente comum dedica boa parte do tempo a julgar o outro: dizer a que veio, o que faz, como parece, com o que se identifica... 

Vez ou outra um suporte didático e teórico pode indicar caminhos para organizarmos essa pluralidade que é Viver. Os livros de Joseph Saltoun são explicações didáticas sobre a Cabala. Com uma linguagem simples, os livros mostram caminhos para aqueles que se dedicam a melhorar o agir e estar no mundo. Acho que uma boa reflexão é separar o que é o caminho da Vida cotidiana - como a consciência compartilhada por Zeno - e o que é o caminho espiritual.

O romance de Svevo é uma boa referência e indicação de leitura para quem quiser observar "de fora" uma "mente robotizada", entregue às vicissitudes da vida. Há passagens nos livros de Joseph Saltoun que falam sobre o uso das técnicas de meditação da Cabala por pessoas ainda imersas na mente cotidiana. O autor afirma que a Luz Divina, pois que é irrestrita, entrega às pessoas tudo o que elas pedem. Caso utilizemos as meditações cabalísticas para pedir prosperidade financeira, esses portais de luz se abrirão para nós. Se pedirmos viagens infinitas, receberemos o pedido por mérito. São afirmações profundamente esperançosas para o mundo em que vivemos hoje.

Há algo dito nos livros de Joseph Saltoun que percebo serem as informações mais difíceis de alcançar. Se os nomes de Deus servem para abrir a Luz Divina espiritual - no sentido espiritual mesmo, caso restem dúvidas sobre o assunto deste texto - por que dedicamos a consciência a resolver os assuntos cotidianos, criando enganações como as criadas por Zeno? O que seria, de fato, o anseio da alma e este "não lugar" onde somos plenamente responsáveis por nosso agir e pelo que atraímos?

Para entender como alcançar esse caminho espiritual, secreto e individual lembrei  de um conto da Clarice Lispector chamado Os desastres de Sofia. O conto está no livro Legião Estrangeira. Acredito que também esteja no livro Felicidade Clandestina, mas não fui checar lá. O conto é dividido em três esferas: a Sofia criança, a Sofia jovem e a própria escritora. A Sofia jovem recebe a notícia da morte de um professor. Ela retorna para suas memórias infantis, quando lembra que levava muitas broncas por seu comportamento errático em sala de aula. A paz se instaura quando Sofia jovem lembra de uma redação proposta pelo professor: neste momento, uma voz mais plena mostra como a criancinha se “borboletou” naquele gesto do professor e se descobriu “escritora”. Quem fala, neste momento, não é Sofia-criança, nem tampouco Sofia-jovem. Quem é o ser que fala quando fala a consciência? 

Entendo que consciência é essa voz que conta. Consciência justa é essa voz que conta sem julgar. Contar, aqui, não é colecionar e nem acumular. Contar é dizer. Nas relações humanas, importa quem cata suas contas, ou seja, é no Outro que reconhecemos Quem Somos. Não se engane: essa consciência sem julgamentos é rara, por isso assumir o lugar de entendê-la já é se afastar dela. A próxima consideração recairia numa proposta moralizante, com a intenção de indicar caminhos para chegar à esta consciência justa, rara e simples. Evitarei o impulso de mostrar esse entendimento, pois - a exemplo da consciência de Zeno - este impulso não se fixa, vagueia, flui, altera... e mente. É ficção.