segunda-feira, 21 de agosto de 2017

CAPÍTULO 1 A NATUREZA E A LOCALIZAÇÃO DA MENTE


 Continuação da Tradução do Surangama Sutra, comentado pelo venerável mestre Hsuan Hua. Versão em inglês disponível em: 
http://www.weebly.com/uploads/6/3/3/1/6331706/surangama_new_translation.pdf

1.      O pedido do Dharma
Quando Ananda viu Buda, ele curvou-se e chorou arrependido. Ele lamentou que, desde tempos sem início, ele devotou a si mesmo para a erudição, mas não tenha desenvolvido plenamente sua prática no Caminho. Respeitosamente e repetidamente, ele pediu ao Buda para explicar para ele os passos elementares que o levariam para alcançar as práticas maravilhosas de acalmar a mente, pensamentos contemplativos e permanência na meditação[1] - práticas através das quais Aquele-que-virá-a-ser em todas as direções se tornou plenamente desperto.
Enquanto isso, os Bodhissattvas lá estavam, em tão grande número quanto os grãos de areia do Rio Ganges, ao lado de grande Arhats, Sábios Solitários e outros seres das dez direções, todos aguardaram ansiosamente para ouvir as instruções de Buda. Eles sentaram e esperaram silenciosamente ouvir as instruções do Sábio.
Então, o Honrado-pelo-Mundo, diante de uma grande assembleia, estendeu seu grande braço dourado, circundou suas mãos na coroa da cabeça de Ananda[2], e disse para Ananda e todos aqueles reunidos naquele local: “Existe um pequeno samãdhi chamado “O Grande e Real Surangama que foi Falado do Alto da Coroa da Cebaça de Buda e que é a Perfeição das Miríades de Práticas”. É um maravilhoso caminho, um portal único no qual os Budas de todas as dez direções passaram na intenção de transcender o mundo condicionado. Vocês todos devem ouvir agora com muita atenção”. Ananda humildemente concordou e aguardou pelas instruções de compaixão.

Por que foi impossível a Ananda resistir ao feitiço maldoso, mesmo que ele já tivesse atingido o primeiro estágio de um Arhat? Ele estava praticando samadhi com sua mente consciente[3]. Quando ele escutava os sutras, ele relembrou os princípios dos quais Buda falava... Mas a mente consciente relembra que os princípios não podem guiar para uma solução fundamental, e, por isso, quando Ananda encontrou uma influência demoníaca, ele falhou em reconhecer isso... A mente consciente é o sujeito vindo a Ser o que pode ser e Deixando de Ser o que era e esta consciência ainda não é a última. Se ao invés de um indivíduo basear sua prática na busca pela verdadeira natureza na qual nenhum dos seres torna-se o Ser que Deve Ser ou não Deixa de Ser o Ser que deve Deixar de Ser, o indivíduo pode desenvolver um samadhi que nem o torna um Ser Pleno e nem o Retira do ser que Ele é. Este é o samadhi genuíno: aquele que não pode ser afetado por forças exteriores. A força de tal samadhi pode ser vitoriosa em qualquer configuração de circunstâncias, positivas ou negativas. No meio de todas elas, o Ser pode se manter constante “assim como o Ser é, pleno e para sempre luminoso”. Este é o genuíno samadhi. Se eventos felizes lhe tornam feliz e eventos tristes lhe deixam triste, isso significa que você está influenciado pelas circunstâncias. Se você se mantiver pulando da alegria para a fúria, da tristeza para a felicidade: você estará influenciado pelas circunstâncias. Ao invés disso, você deve ser como um espeho, que reflete o que aparece nele e, assim, se mantém constante. Isso é o que significa ter uma sabedoria genuína (I, 146-7).

Buda disse para Ananda, “Você e eu somos membros da mesma família[4] e compartilhamos a afeição que é natural entre parentes. No momento em que você resolveu priorizar se tornar iluminado, quais foram os excelentes atributos que você viu em meu Dharma que imediatamente levaram você a rejeitar a profunda afeição familiar e amor conjugal encontrados no mundo”?
Ananda respondeu para Buda: “Eu vi os 32 caminhos Daquele-Que-Pode-Vir-A-Ser, que são tão profundamente maravilhosos e incomparáveis que todo este corpo pode brilhar como um cristal, com uma radiação refletora imensurável. Frequentemente, pensava comigo mesmo que o corpo com tais marcas do caminho não poderia gerar a consequência de um ato de amor sexual. Por quê? As energias do desejo são grosseiras. O sexo pútrido resulta em uma imersão turva em substâncias procriativas; tais coisas não podem gerar um corpo com as maravilhosas, puras, magnificentes e brilhante concentração de luz púrpura-dourada. Por isso eu admirei o Buda e por isso eu deixei o cabelo cair de minha cabeça[5]: para que eu o pudesse seguir”.
Buda disse: “Excelente, Ananda! Todos vocês devem saber que desde tempos sem início, todos os seres passam por morte e renascimento e apenas porque eles não estão conscientes do puro entendimento que é a natureza essencial da última verdade da mente. Ao contrário disso, os trabalhos de suas mentes são distorcidos, e porque os trabalhos de suas mentes são distorcidos, eles estão presos ao ciclo da morte e do renascimento.
“Agora eu quero que todos vocês perguntem sobre a iluminação insuperável e que descubram sobre a verdade de suas próprias naturezas. Vocês devem responder minha pergunta com retidão e diretamente, porque este é o caminho daquele que Há-De-Ser em todos os lugares através das dez direções. Todos que atingiram este caminho seguiram esses passos enquanto se livraram da morte e do renascimento. Suas mentes e suas palavras eram retas e diretas e, portanto, em todos os pontos do seu progresso – do primeiro estágio ao último – eles não eram nem um pouco evasivos.
“Agora, Ananda, pergunto isso a você: quando, em resposta aos 32 caminhos Daquele-Que-Virá-A-Ser, você primeiro resolveu se manter próximo ao despertar completo, o que é isso que pode ser visto nos 32 caminhos e quem foi aquele que apreciou o caminho com delícia e amor”?
Ananda respondeu ao Buda: “Homem Honrado pelo Mundo, eu aprecio e amo os caminhos com minha mente e olhos. Porque eu vi com meus olhos as excelentes realizações Daquele-Que-Pode-Vir-A-Ser, minha mente admira e aprecia suas realizações. Desse modo, decidi me livrar da morte e do renascimento”.
Buda disse para Ananda: “É assim do modo como você diz: sua mente e seus olhos são a razão para sua admiração e prazer. Aquele que não saiba onde esteja sua mente e seus olhos não estarão aptos para vencer os desafios do engajamento com os objetos perceptíveis[6]. Considere, por exemplo: quando saqueadores invadem um país e o rei manda adiante seus soldados para os espantarem, os soldados devem primeiro conhecer onde os saqueadores estejam. É culpa de sua mente e de seus olhos que você esteja preso ao ciclo da morte e do renascimento. E, agora, estou perguntando a você: onde estão sua mente e seus olhos”?



[1] Skt. Samatha, samápatti, dhyãna.
[2] Skt. Samatha, samapatti, dhyana.
[3] Skt. Citta. Ch. Xin. A mente nas quais as distinções são feitas baseadas na ignorância.
[4] Ananda e Buda eram primos por parte de pai,.
[5] Monges budistas e freiras devem raspar suas cabeças para entrar na vida monástica. A prática continua até os dias atuais
[6] Ch. Chen lao. Esta é a primeira menção de um tema no qual Buda retorna frequentemente no Sutra: os desafios e cansaço que se atinge inevitavelmente como resultado na imersão no mundo dos sentidos. O tema é desenvolvido completamente nas partes IV e V.

Nenhum comentário:

Postar um comentário