Continuação da Tradução do Surangama Sutra, comentado pelo venerável mestre Hsuan Hua. Versão em inglês disponível em:
http://www.weebly.com/uploads/6/3/3/1/6331706/surangama_new_translation.pdf
1.
O
pedido do Dharma
Quando Ananda viu
Buda, ele curvou-se e chorou arrependido. Ele lamentou que, desde tempos
sem início, ele devotou a si mesmo para a erudição, mas não tenha desenvolvido plenamente sua prática no Caminho. Respeitosamente e repetidamente, ele pediu ao
Buda para explicar para ele os passos elementares que o levariam para alcançar as
práticas maravilhosas de acalmar a mente, pensamentos contemplativos e
permanência na meditação[1] - práticas através das
quais Aquele-que-virá-a-ser em todas as direções se tornou plenamente desperto.
Enquanto isso, os Bodhissattvas lá estavam, em tão grande número quanto os grãos
de areia do Rio Ganges, ao lado de grande Arhats, Sábios Solitários e outros
seres das dez direções, todos aguardaram ansiosamente para ouvir as instruções de Buda. Eles sentaram
e esperaram silenciosamente ouvir as instruções do Sábio.
Então, o
Honrado-pelo-Mundo, diante de uma grande assembleia, estendeu seu grande braço
dourado, circundou suas mãos na coroa da cabeça de Ananda[2], e disse para Ananda e
todos aqueles reunidos naquele local: “Existe um pequeno samãdhi chamado “O Grande e Real Surangama que foi Falado do Alto
da Coroa da Cebaça de Buda e que é a Perfeição das Miríades de Práticas”. É um
maravilhoso caminho, um portal único no qual os Budas de todas as dez direções
passaram na intenção de transcender o mundo condicionado. Vocês todos devem
ouvir agora com muita atenção”. Ananda humildemente concordou e aguardou pelas
instruções de compaixão.
Por que foi impossível a Ananda
resistir ao feitiço maldoso, mesmo que ele já tivesse atingido o primeiro
estágio de um Arhat? Ele estava praticando samadhi com sua mente consciente[3]. Quando ele
escutava os sutras, ele relembrou os princípios dos quais Buda falava... Mas a mente consciente relembra
que os princípios não podem guiar para uma solução fundamental, e, por isso,
quando Ananda encontrou uma influência demoníaca, ele falhou em reconhecer
isso... A mente consciente é o sujeito vindo a Ser o que pode ser e Deixando de
Ser o que era e esta consciência ainda não é a última. Se ao invés de um indivíduo basear sua prática na busca pela verdadeira natureza na qual nenhum dos seres torna-se o Ser que
Deve Ser ou não Deixa de Ser o Ser que deve Deixar de Ser, o indivíduo pode
desenvolver um samadhi que nem o
torna um Ser Pleno e nem o Retira do ser que Ele é. Este é o samadhi genuíno: aquele que não pode ser
afetado por forças exteriores. A força de tal samadhi pode ser vitoriosa em qualquer configuração de
circunstâncias, positivas ou negativas. No meio de todas elas, o Ser pode se
manter constante “assim como o Ser é, pleno e para sempre luminoso”. Este é o
genuíno samadhi. Se eventos felizes
lhe tornam feliz e eventos tristes lhe deixam triste, isso significa que você
está influenciado pelas circunstâncias. Se você se mantiver pulando da alegria
para a fúria, da tristeza para a felicidade: você estará influenciado pelas
circunstâncias. Ao invés disso, você deve ser como um espeho, que reflete o que
aparece nele e, assim, se mantém constante. Isso é o que significa ter uma
sabedoria genuína (I, 146-7).
Buda disse para
Ananda, “Você e eu somos membros da mesma família[4] e compartilhamos a afeição
que é natural entre parentes. No momento em que você resolveu priorizar se
tornar iluminado, quais foram os excelentes atributos que você viu em meu
Dharma que imediatamente levaram você a rejeitar a profunda afeição familiar e
amor conjugal encontrados no mundo”?
Ananda respondeu para
Buda: “Eu vi os 32 caminhos Daquele-Que-Pode-Vir-A-Ser, que são tão
profundamente maravilhosos e incomparáveis que todo este corpo pode brilhar
como um cristal, com uma radiação refletora imensurável. Frequentemente,
pensava comigo mesmo que o corpo com tais marcas do caminho não poderia gerar a
consequência de um ato de amor sexual. Por quê? As energias do desejo são
grosseiras. O sexo pútrido resulta em uma imersão turva em substâncias
procriativas; tais coisas não podem gerar um corpo com as maravilhosas, puras,
magnificentes e brilhante concentração de luz púrpura-dourada. Por isso eu
admirei o Buda e por isso eu deixei o cabelo cair de minha cabeça[5]: para que eu o pudesse
seguir”.
Buda disse: “Excelente,
Ananda! Todos vocês devem saber que desde tempos sem início, todos os seres
passam por morte e renascimento e apenas porque eles não estão conscientes do
puro entendimento que é a natureza essencial da última verdade da mente. Ao
contrário disso, os trabalhos de suas mentes são distorcidos, e porque os
trabalhos de suas mentes são distorcidos, eles estão presos ao ciclo da morte e
do renascimento.
“Agora eu quero que
todos vocês perguntem sobre a iluminação insuperável e que descubram sobre a
verdade de suas próprias naturezas. Vocês devem responder minha pergunta com
retidão e diretamente, porque este é o caminho daquele que Há-De-Ser em todos
os lugares através das dez direções. Todos que atingiram este caminho seguiram
esses passos enquanto se livraram da morte e do renascimento. Suas mentes e
suas palavras eram retas e diretas e, portanto, em todos os pontos do seu
progresso – do primeiro estágio ao último – eles não eram nem um pouco
evasivos.
“Agora, Ananda,
pergunto isso a você: quando, em resposta aos 32 caminhos
Daquele-Que-Virá-A-Ser, você primeiro resolveu se manter próximo ao despertar
completo, o que é isso que pode ser visto nos 32 caminhos e quem foi aquele que
apreciou o caminho com delícia e amor”?
Ananda respondeu ao
Buda: “Homem Honrado pelo Mundo, eu aprecio e amo os caminhos com minha mente e
olhos. Porque eu vi com meus olhos as excelentes realizações
Daquele-Que-Pode-Vir-A-Ser, minha mente admira e aprecia suas realizações.
Desse modo, decidi me livrar da morte e do renascimento”.
Buda disse para
Ananda: “É assim do modo como você diz: sua mente e seus olhos são a razão para
sua admiração e prazer. Aquele que não saiba onde esteja sua mente e seus olhos
não estarão aptos para vencer os desafios do engajamento com os objetos
perceptíveis[6].
Considere, por exemplo: quando saqueadores invadem um país e o rei manda
adiante seus soldados para os espantarem, os soldados devem primeiro conhecer
onde os saqueadores estejam. É culpa de sua mente e de seus olhos que você
esteja preso ao ciclo da morte e do renascimento. E, agora, estou perguntando a
você: onde estão sua mente e seus olhos”?
[1] Skt. Samatha, samápatti, dhyãna.
[2] Skt. Samatha, samapatti, dhyana.
[3] Skt. Citta. Ch. Xin. A mente
nas quais as distinções são feitas baseadas na ignorância.
[4] Ananda e Buda eram primos
por parte de pai,.
[5] Monges budistas e freiras
devem raspar suas cabeças para entrar na vida monástica. A prática continua até
os dias atuais
[6] Ch. Chen lao. Esta é a primeira menção de um tema no qual Buda retorna
frequentemente no Sutra: os desafios e cansaço que se atinge inevitavelmente
como resultado na imersão no mundo dos sentidos. O tema é desenvolvido
completamente nas partes IV e V.
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