SUTRA SOBRE O SURANGAMA MANTRA QUE FOI FALADO ABAIXO DA
COROA DA CABEÇA DO GRANDE BUDA SOBRE AS BASES ESCONDIDAS DAS MIRÍADES DE
PRÁTICAS BODHISSATTVAS DAQUELES-QUE-PODEM-VIR-A-SER QUE NOS LEVA A VERIFICAR AS
VERDADES ÚLTIMAS
Continuação da Tradução do Surangama Sutra, comentado pelo venerável mestre Hsuan Hua. Versão em inglês disponível em: http://www.weebly.com/uploads/6/3/3/1/6331706/surangama_new_translation.pdf
Traduzido para o
Chinês durante a Dinastia Tang pelo monge Ancião Paramiti da Índia Central.
Revisado pelo monge ancião Meghasíka de Uddiyana. Verificado por monge ancião
Huaidi do Monastério Nanlou em Mt. Loufou.
Prólogo
Assim ouvi[2]: em um momento, Buda
estava na cidade de Sravasti em um sublime encontro no Bosque com o príncipe
Jetri[3], junto com um grande
número de monges[4],
250 no total. Estes discípulos de Buda eram grandes Arhats, livres de
oscilações[5], eles se prenderam ao Darma
e o sustentaram. Eles transcenderam completamente toda a existência e seu
perfeito comportamento inspirou temor em todos os lugares em que íam. Eles
seguiram Buda ao girar a roda do darma[6] e foram supremamente
dignos do que Buda concedeu a eles. Severos e puros na aderência ao código
monástico[7], eles eram ótimos
exemplares para os seres nos três reinos da existência[8]. Para liberar os seres,
eles apareceram em incontáveis corpos em resposta àquilo que os seres
necessitavam e, no futuro, eles poderiam resgatar outros seres, que, por sua
vez, poderiam transcender do fogo de seus apegos aos objetos sensórios.
Os líderes Arhats
foram Shariputra, grande em Sabedoria, e MahaMaudgalyãyana, Mahã-Kausthila,
Purnamaitrayaniputra, Subhuti, Upanisad e outros. Incontáveis Sábios Solitários,
que não precisavam de mais instruções[9], assim como outros seres
que apenas recentemente decidiram atingir a completa iluminação[10], também foram até o local
onde Buda e os monges estavam. Foi durante os Dias do Desabafo (Unburdening[11]) na conclusão do retiro
de verão. Bodhissattvas de todas as dez direções[12] estavam lá reunidos
também; eles desejavam aconselhamentos para resolver suas dúvidas[13]. Todos estavam
respeitosos e obedientes para o inspirador e compassivo Que-Virá-A-Ser enquanto
eles mesmos se preparavam para compreender os sentidos ocultos.
Pessoas que se tornaram
iluminadas são livres de oscilações: as oscilações do desejo, as oscilações da
existência e as oscilações da ignorância. Porque eles são livres de oscilações,
eles não caem no reino do desejo, no reino das formas e no reino além das
formas. Nós, pessoas, lidamos agora com o reino do desejo... Ele é denominado
reino do desejo porque as pessoas nele possuem desejos por coisas materiais ou
por sexo, desejos que eles não conseguem colocar um ponto final... As
oscilações da existência são sofridas por seres que estão além destes desejos e
que lidam com os paraísos dos reinos das formas... Estes seres ainda não
conseguem controlar os seus desejos por uma experiência corpórea... Além destas
duas oscilações, e da maior das três, há a oscilação da ignorância, que é a
fonte de todas as aflições. Quando esta oscilação acabar, as outras duas também
cessarão (I, 99-100)[14].
Aquele-que-virá –a-ser[15], tendo arranjado seu
assento, sentou quieto e pacificamente, e, aí, para o benefício de todos na plateia,
falou sobre o profundo e sobre o misterioso. A assembleia, pura em mente e no
corpo, aprendeu naquele Banquete do Dharma, o que eles não sabiam antes. A voz
Imortal foi como o chamado do pássaro kalavinka[16]
e podia ser ouvido em mundos através das dez direções. Existiam tantos Budas quantos
grãos de areia no Ganges reunidos no lugar do despertar, com Mañjusri como seu
líder.
O Rei Prasenajit, no
aniversário do dia de luto do seu pai, o último rei, organizou um festival
vegetariano no hall de banquetes do palácio. Ele convidou Buda e Aquele-que-virá-aser
em pessoa para comer uma variedade de guloseimas. Ele tamb´rm convidou os
grandes Bodhissattvas. Enquanto isso, na cidade, os mais velhos e outros haviam
também preparado comidas para Sangha[17] e eles aguardaram a
chegada de Buda para receber suas oferendas. Buda direcionou Muñjusri para
designar os Arhats e Bodhissattvas para aceitarem as comidas vegetarianas puras
que os doadores ofereciam.
Quando doadores ofertam para as
Três Joias – Buda, Dharma e Sangha – eles plantam sementes que crescem e
amadurecem como bênçãos no futuro. Assim, pessoas que entraram na vida
monástica são chamadas “campos para bênçãos”. Pessoas que participam das
recompensas de muitas bênçãos são plenamente satisfeitas. Aqueles que sentem
que suas bênçãos não são suficientes devem realizar mais oferendas para as Três
Joias (I, 130).
Apenas Ananda estava
atrasado para o compromisso do Sangha. Mais cedo, ele havia viajado para uma
distância na intenção de aceitar um convite especial e não havia retornado.
Nenhum monge mais treinado[18] o estava acompanhando
como professor e ele retornava sozinho pelo caminho.
Ananda vai passar por
tribulações, e a razão disso é que ele estava sozinho. Ele havia aceitado um
convite especial... Basicamente, monges não devem aceitar convites especiais...
A regra do Budismo é que todos os membros da Sangha em uma comunidade particular
devem ser convidados como um grupo... Além disso, membros da Sangha devem
viajar sempre ao menos em pares, embora algum entre eles que tenha a samadhi mais forte possa realizar
atividades por si mesmo (I, 126-8).
Até então Ãnanda não
havia recebido nenhuma oferenda. No tempo apropriado, ele pegou seu pote de
pedido e, enquanto caminhava pela cidade, aceitou oferendas em ordem sequencial[19]. Enquanto recebia esmolas
do primeiro ao último doador[20], ele pensou consigo mesmo
que poderia aceitar comida pura de qualquer pessoa, não apenas dos honoráveis da
família Ksatriyas[21] e outros de classes
puras, mas também dos Candãlas[22] e outros que eram
considerados impuros. Enquanto praticava imparcialidade e compaixão, ele não
iria favorecer apenas as gentes mais humildades; ele estava determinado para
assistir todos os seres para criarem méritos além das medidas. Ananda sabia que
Aquele-Que-Virá-A-Ser, o Ser-Honrado-pelo-Mundo[23] havia admoestado os
Arhats e Subh~uti e Mahãkãsyapa por terem sido preconceituosos com os doadores
de esmolas. Ananda reverenciou as instruções Daquele-que-virá-a-ser: que as
esmolas fossem recebidas imparcialmente e assim as pessoas não seriam levadas a
duvidar ou a caluniar.
Por que Ananda queria praticar a
imparcialidade e compaixão durante seu período de pedir esmolas? Mais cedo, ele
ouviu Buda repreender Subh~uti e Mahãkãsyapa sobre seus modos de receberem as
esmolas... Era da opinião de Subhuti que ele deveria receber esmolas exclusivamente
dos ricos, na base de que pessoas com dinheiro poderiam criar mais mérito...
porque se eles não fizerem oferta alguma em vida, eles não terão dinheiro algum
na próxima vida... Mahãkãsyapa, por outro lado, recebia esmolas exclusivamente
dos pobres. Ele pensou: “Pessoas sem dinheiro algum criam méritos através de
suas boas intenções, assim na próxima vida eles poderão ser ricos e honrados.
Se eu não os ajuda-los recebendo esmolas deles, assim, na próxima vida e no
futuro, eles continuarão a serem pobres”. Eu acredito que existe outra razão
sob o comportamento deles. Parece justo dizer que Subhuti gostava de comer boa
comida e Mahãkasyapa, entre outros discípulos de práticas ascéticas, comiam o
que alguns não aguentavam e suportavam o que alguns não conseguiam suportar (I,
130-1).
Tendo passado pelo
fosso da cidade, Ananda caminhou vagarosamente para os portões exteriores, à
sua maneira apropriada enquanto ele seguia estrita e respeitosamente as regras
de aceitar comida pura. Porque recebia esmolas em sequência, ele, por chance,
passou por uma casa de cortesãs e lá ele foi assaltado por um artifício
poderoso. Paraíso[24], uma jovem mulher Matanga
seduziu Ananda para sua cama. Lá, ela o cuidou lascivamente, até o nível em que
os poderes de seus votos[25] estavam no limite de
serem quebrados.
Sabendo que Ananda
estava sucumbindo na influência carnal do feitiço, Aquele-que-virá-a-ser
terminou sua refeição imediatamente e retornou para os terrenos monásticos. O
Rei, seus ministros mais experientes, os idosos e outros laicos, desejosos de
ouvir a essência do Darma, seguiram logo após Buda. Assim, da coroa de sua
cabeça[26] o Honrado-pelo-Mundo
soltou quatro luzes invencíveis que brilhavam como centenas de pedras
preciosas. Buda Shakyamune apareceu naquela luz como um Buda, sentado em uma
posição de flor de lótus com uma centena de pétalas sagradas, e proclamou um
mantra espiritual poderoso[27].
O Surangama Mantra é o rei dos
reis dos mantras. Ele é extremamente importante. Estudantes do Darma de Buda
que podem aprender este mantra em suas vidas presentes viverão uma vida
preciosa e não desperdiçarão sua vida em vão (I, 97-8).
Buda instruiu Manjusri
a ir até Ananda e protege-lo com um mantra espiritual poderoso e, uma vez que o
mau feitiço fosse vencido, Manjusri deveria dar apoio a Ananda e também para a
jovem Matanga, e encorajar ambos a retornarem com ele para onde o Buda estaria.
[1]
Como mencionado na introdução, esta divisão e todas as subdivisões foram
adicionadas pelos tradutores para acrescentar o entendimento.
[2]
“Eu” refere a Ananda, o primo e discípulo de Buda Shakyamunni, que recitou os
ensinamentos de Buda para uma assembleia de discípulos iluminados após o
nirvana de Buda. Ele é protagonista e narrador deste Sutra.
[3] O
bosque foi doado para Buda pelo príncipe Jetri. Foi parte do parque chamado Jardim dos Beneficiadores dos Órfãos e das
Crianças sem Pais. O parque foi doado para Buda pelo lama budista
Anathapindada.
[4]
Sânscrito: bhiksu. Um monge budista
plenamente ordenado. A forma feminina em sânscrito é bhiksuni. Em chinês: biqiu.
[5] Em
sânscrito: anãsrava. “Oscilações” refere-se ao desprendimento de energia em
direção a objetos que algum percebe, incluindo objetos de desejo.
[6] O
que seja, ensinar utilizando as palavras de Buda.
[7]
Vinaya.
[8] O
reino do desejo, o reino da forma e o reino além da forma. Veja mais na parte
9,11.
[9] Em
sânscrito, asáika. Chinês, wu xue. Aqueles que não precisam de mais
instruções são os Sábios Solitários e os Arhats do quarto estágio, em oposição
aos sáika (chinês, you xue). Arhats, que estão ainda nos
três primeiros estágios e ainda precisam de instruções – inclusos Ananda, que é
foco no sutra, está no primeiro estágio no começo do sutra.
[10]
Em sânscrito, Bodhi. Em chinês, pu ti. Completa
iluminação.
[11] Skt. Pravãrana, os dias finais do retiro
monástico durante o período chuvoso.
[12]
As dez direções são: norte, sul, leste, oeste, noroeste, nordeste, sudeste, sudoeste,
acima e abaixo.
[13]
Eles não compreendiam as “Bases Escondidas” mencionadas no título do Sutra.
[14]
Este é o primeiro excerto do Vem. Mestre Hsüa Hua citado no presente volume.
Para assegurar uma clara distinção entre as passagens do texto do Sutra e das
passagens do comentário, os excertos dos comentários possuem outra parafragação
e outra fonte. As referências, dadas em parênteses ao final de cada passagem ou
comentário do parágrafo, cita o volume e o número de página no qual os excertos
podem ser encontrados na edição de 2003 deste Sutra editado pela Sociedade de
Tradução de Textos Budistas. Os excertos foram editados com brevidade e
conforme a presente tradução.
[15] Skt. Thatãgata. Ch. Ru lai, um
título honorífico para o Buda.
[16] O kalavinka é um pássaro indiano com um canto puro e penetrante. O “Imortal”
é Buda.
[17] A
palavra sânscrita sangha significa “comunidade”.
Aqui – e mais frequentemente nas tradições budistas asiáticas – Sangha refere especificamente à
comunidade monástica de monges e freitas, ambas plenamente treinadas e
ordenadas.
[18] Skt. Ãcãrya, um exemplar no
seguimento das regulações monásticas.
[19] Ou seja, sem pular
nenhuma das casas de sua rota.
[20] Skt. Dãnapati, doador de esmolas.
[21] A classe real e guerreida
da Sociedade Antiga Indiana.
[22] Uma tribo de banidos da
sociedade Indiana.
[24] O
Paraíso de Brahma pertence ao reino da forma e corresponde ao nível da
meditação focada (single-minded) conhecida como a primeira dhyãna. Veja a parte
9.11 b.
[25]
Ch. Je ti. A frase indica que a força
moral que cresce ao receber e ao seguir os preceitos budistas.
[26]
Na coroa da cabeça de Buda existe uma carne proeminente (Skt. Usnísa), que é a primeira das 32 distintivas
marcas que são características dos corpos de todos os Budas.
[27]
Surangama Sutra, veja a parte 8. Os mantras são, em geral, frases faladas nas
quais os significados primários não são cognitivos, mas aqueles significados e
poderes sustentam-se em um nível espiritual que transcende o entendimento
verbal ordinário.
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