Considerações sobre O
que é a consciência dos justos?
Anotações e impressões de leitura sobre os
livros Kaballah e as chaves secretas do universo e Árvore da vida: a arte de viver segundo a Cabala, de
Joseph Saltoun.
Houve
um homem que enganou a todos. Em cada sentença dita havia uma pegadinha para levemente
ludibriar seu próprio pensamento e o pensamento do outro. Este homem foi
meticulosamente estudado por um médico. Profundamente irritado e ofendido pelas
mentiras ouvidas, o médico cedeu as memórias sobre o contato com seu paciente
para que os leitores averiguassem o valor daquelas ficções como mentiras ou
verdades. O paciente era dono de uma erudição refinada. Conseguia unir Luciano
de Samósata e Freud em uma única frase. Afinal, o que o paciente contava ao seu
médico? A qual crença ou credulidade servimos quando nos dispomos a ouvir e a
falar? Quem tinha mais consciência do gesto de interlocução: o médico ou o
paciente? Este é o mote inicial do romance A
consciência de Zeno, escrito por Italo Svevo nos anos 70 do século XX.
Svevo
é um autor singular. Remonto de memória as informações lidas nos últimos anos e
é bem possível que eu recaia na ilusão de Zeno: muitas frases deste texto podem
ser meras ficções. Não sabemos quase nada sobre o autor: ele usa um pseudônimo,
é possível que seja italiano e decidiu escrever livros sem outorgar para si o
título de autor. Não recordo de ter conhecido outros estudos que indiquem informações mais precisas sobre a arqueologia de Svevo e tampouco sobre sua prática de escrita.
O
romance A consciência de Zeno inicia
com uma confissão de um médico irado com as memórias contadas pelo paciente
Zeno. O médico fornece aos leitores todas as memórias de Zeno e, furioso, concede o julgamento das memórias ao próprio leitor, pois ele próprio não sabia mais se aquelas histórias eram verdadeiras ou falsas. A carta inicial do romance intriga, pois não há possibilidade de reconstituir o que seja real. Será que Svevo conseguiu aquelas anotações e, com isso, construiu o seu
romance? Será que Svevo escreveu aquela carta e fingiu haver um médico que orientou Zeno?
Em qual possibilidade devo acreditar? Tenho tendência a crer na segunda possibilidade. Para orientar minha escolha, lembro que o mesmo recurso ficcional foi utilizado por João Ubaldo Ribeiro, em seu volume sobre a Luxúria, no romance A casa dos Budas Ditosos. João Ubaldo diz que recebeu em seu apartamento um pacote com muitas anotações das aventuras luxuriosas de uma mulher. Não sabemos se o pacote é verdadeiro ou não.
Por curiosidade, li o livro - de preferência até a última página - para averiguar as memórias destes seres inventados, não existentes. Para mim, um romance funciona como uma grande porta para compreender o que é viver, o que é ser humano. O mote do romance A consciência de Zeno indica, para mim, uma pergunta muito cara: o que é a consciência humana?
As histórias de Zeno colam fragmentos de ficções da literatura ocidental:
passagens dos autores gregos do terceiro século antes de Cristo se misturam a
autores românticos do século XIX. A angústia do médico é não ter percebido as mentiras deslavadas de
Zeno como um traço comum a qualquer narrativa romanesca. Zeno ocupa o
tempo do médico contando longamente sobre o voo de um mosquito associando este
ato ao seu tédio; relatando o desgosto em conviver com o parceiro do seu amor
antigo (tema recorrente em romances russos) e justificando a inveja que Zeno
sentia das altas habilidades deste homem. Todas estas histórias são contadas como se fossem vividas pelo próprio Zeno.
Não foram: tudo era ficção. O artifício de Svevo é engenhoso, pois ele criou uma consciência ficcional ao mesmo tempo nova e repetida, a partir da invenção de histórias escritas anteriormente por outros autores. Com essa bricolagem de assuntos ficcionais, Italo Svevo leva adiante a tarefa de mostrar uma consciência de um homem: atual e ancestral. A consciência de Zeno vagueia, aprofunda pensamentos, conta histórias, demonstra desejos, intui... E, na interpretação do médico, mente. É ilusória.
O engenho de Svevo não faz referências a nenhum dos textos lidos e reescreve-as de um jeito
novo e original. O leitor com um grande repertório lerá o romance como uma
grande piada sobre a produção literária ocidental com mais de dois mil anos de
existência. O leitor com um repertório mediano lerá o romance como uma história
de um homem comum, entregue às vicissitudes diárias e aos desgostos do viver. O
leitor que entrar no livro com a informação de que ele possui “chaves para
entender a literatura”, passará o tempo procurando os códigos: afinal, de qual
Literatura Svevo fala aqui? Qual o autor ele cita? A posição do leitor vai
determinar se a leitura de A consciência
de Zeno é divertida ou “mais uma leitura chata”.
Independente das expectativas de leitura, a proposta de Svevo é mostrar o funcionamento de uma consciência. Confesso que saí do romance sem a resposta
sobre o que seja a consciência. Será que somos essa coleção de histórias? Há
necessidade de colecionar histórias para Ser? Afinal, o que é a consciência?
É
neste ponto que me proponho a tecer alguns comentários sobre a consciência dos justos, conforme a
Cabala explicada por Joseph Saltoun. Não é minha intenção hermenêutica unir a
cabala à interpretação do romance de Svevo. A lembrança das impressões de leitura sobre A consciência de Zeno talvez sejam meras divagações. Todos sabemos que esta vinculação
destoa do rigor científico literário. A vontade, aqui, é apenas falar sobre
assuntos lidos nos últimos tempos, todos referentes à questão “O que é a
consciência”.
Nos
livros Kaballah e as chaves secretas do universo e A Árvore da Vida: a arte de
viver segundo a Cabala, Joseph Saltoun explica longamente sobre a consciência dos justos e sobre a consciência
dos perversos. Os princípios são simples: para atingirmos a consciência do
justo, devemos aceitar sobre nós todo julgamento e doar para os outros toda a
misericórdia.
Nos textos de Joseph Saltoun, lemos como é fácil atingir a luz divina: ela é acessível a todos. A luz divina é generosa e está à disposição para qualquer atribuição que qualquer pessoa deva fazer na vida. A Luz Divina chega (1) à consciência (2) dos justos e dos (3) perversos. São três conceitos bem interessantes. Nesse ponto, aparece a primeira encruzilhada. O que é consciência? O que é justo? O que é a consciência do justo?
Com estas perguntas em mente, recordei sobre o romance de Svevo e outros textos lidos. Por
exemplo, lembrei de Lacan, em seu III Seminário, quando há uma explicação sobre a psique do perverso
recontando o caso do Homem dos Ratos,
de Freud. Não me alongarei na explicação do caso, ele é facilmente acessado em vídeos
no youtube ou pela própria leitura. Se entendi bem, neste Seminário Lacan
explica como a linguagem é ao mesmo tempo
estrutura para nossas histórias
contadas e estruturante do jeito
como acessamos essas histórias. Há, portanto, uma dupla face na linguagem, sim? Acessando o conteúdo dessa
estrutura-estruturante, aquele que se propõe a analisar a própria consciência,
observando um momento na vida em que se sentiu ofendido, chegará –
repentinamente ou não – à conclusão de que “o canalha” – aquele que me fez mal –
é apenas uma pessoa que impediu o meu desejo de seguir adiante. Há um lugar
onde o impulso é não-agir e onde a responsabilidade do meu “desejo ofendido” é
minha, não do outro. Recuperei Lacan porque a vida não é roteirizada como um romance.
Este texto veio à minha memória, pois Joseph Saulton dedica boas páginas do livro a explicar por que não devemos assumir a posição de "justos", pois a mente comum dedica boa parte do tempo a julgar o outro: dizer a que veio, o que faz, como parece, com o que se identifica...
Vez ou outra um suporte didático e teórico pode indicar caminhos para organizarmos essa pluralidade que é Viver. Os livros de Joseph Saltoun são explicações didáticas sobre a Cabala. Com uma linguagem simples, os livros mostram caminhos para aqueles que se dedicam a melhorar o agir e estar no mundo. Acho que uma boa reflexão é separar o que é o caminho da Vida cotidiana - como a consciência compartilhada por Zeno - e o que é o caminho espiritual.
O romance de Svevo é uma boa referência e indicação de leitura para quem quiser observar "de fora" uma "mente robotizada", entregue às vicissitudes da vida. Há passagens nos livros de Joseph Saltoun que falam sobre o uso das técnicas de meditação da Cabala por pessoas ainda imersas na mente cotidiana. O autor afirma que a Luz Divina, pois que é irrestrita, entrega às pessoas tudo o que elas pedem. Caso utilizemos as meditações cabalísticas para pedir prosperidade financeira, esses portais de luz se abrirão para nós. Se pedirmos viagens infinitas, receberemos o pedido por mérito. São afirmações profundamente esperançosas para o mundo em que vivemos hoje.
Há algo dito nos livros de Joseph Saltoun que percebo serem as informações mais difíceis de alcançar. Se os nomes de Deus servem para abrir a Luz Divina espiritual - no sentido espiritual mesmo, caso restem dúvidas sobre o assunto deste texto - por que dedicamos a consciência a resolver os assuntos cotidianos, criando enganações como as criadas por Zeno? O que seria, de fato, o anseio da alma e este "não lugar" onde somos plenamente responsáveis por nosso agir e pelo que atraímos?
Para entender como alcançar esse caminho espiritual, secreto e individual lembrei de um conto da Clarice Lispector chamado Os desastres de Sofia. O conto está no livro Legião Estrangeira. Acredito que também esteja no livro
Felicidade Clandestina, mas não fui
checar lá. O conto é dividido em três esferas: a Sofia criança, a Sofia jovem e
a própria escritora. A Sofia jovem recebe a notícia da morte de um professor.
Ela retorna para suas memórias infantis, quando lembra que levava muitas
broncas por seu comportamento errático em sala de aula. A paz se instaura
quando Sofia jovem lembra de uma redação proposta pelo professor: neste
momento, uma voz mais plena mostra como a criancinha se “borboletou” naquele
gesto do professor e se descobriu “escritora”. Quem fala, neste momento, não é
Sofia-criança, nem tampouco Sofia-jovem. Quem é o ser que fala quando fala a consciência?
Entendo que consciência é essa voz que conta. Consciência justa é essa voz que conta sem julgar. Contar, aqui, não é colecionar e nem acumular. Contar é dizer. Nas relações humanas, importa quem cata suas contas, ou seja, é no Outro que reconhecemos Quem Somos. Não se engane: essa consciência sem julgamentos é rara, por isso assumir o lugar de entendê-la já é se afastar dela. A próxima consideração recairia numa proposta moralizante, com a intenção de indicar caminhos para chegar à esta consciência justa, rara e simples. Evitarei o impulso de mostrar esse entendimento, pois - a exemplo da consciência de Zeno - este impulso não se fixa, vagueia, flui, altera... e mente. É ficção.
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